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Agora, José; Sorria.

É sem dúvida frustante o quão rápido o tempo se esvai quando estamos com quem gostamos. Horas se comprimem em memórias repletas de odores, sorrisos, abraços e apertões, leves e marcados, movimentos que não poderiam ser outra coisa senão afeto. E quando essas horas terminam e tudo que sobra é o solavanco do ônibus no caminho de casa, dá uma certa sensação de vazio e nos pegamos parafraseando Drummond em nossas cabeças.

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

Mas, em tentando lidar com essa frustação do badalar e da abóbora, parte de mim grita respondendo. Seja como for a brevidade desses encontrões no tumulto que é a vida, cada segundo a mais é um segundo a menos, nos aproximando do final e afastando do começo – grãos de areia que percorrem um sentido só, sem nunca retornar, sem permitir um relance, uma segunda chance de aproveitá-los.
Mais do que nunca me faz sentido a palavra ‘conviver’. Ao viver com, partilhar experiências e criar memórias, estamos escolhendo ainda que de maneira inconsciente, à quem entregar parte de nossa vida – . E, no final da noite, não poderia eu estar mais feliz por quem eu escolhi e por quem me escolheu.


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Quadrados Imprevisíveis

É uma coisa engraçada planejar o futuro – é tentar prever a cadeia de consequências dos nossos atos. São atos que dependem de atos que por sua vez dependem de outros atos! É nessas horas que eu bem que gostaria de saber jogar xadrez melhor. Se bem que, até mesmo os melhores jogadores de xadrez acabam presas da impossibilidade de prever todas as jogadas, seja contra um Deep Blue da vida ou do governo russo, pobre Kasparov.

Como então que eu, um mero mortal que parou no nível “xadrez para iniciantes” tem alguma chance de fazer a escolha certa? Acho que a resposta é complicada e simples, mais uma das muitas dicotomias da vida. Cada um tem um tabuleiro diferente, peças que se comportam de modo único e, às vezes, centenas de cores que disputam pela coroa ao mesmo tempo. Branco e Preto? Só no xadrez, na vida temos uma gama de cinzas tão grande que cada movimento de um peão cria ondas de causar inveja nos maiores lepdópteros teóricos.

Talvez seja presunçoso da minha parte assumir que sei algo sobre responder as questões que surgem nos corredores da vida mas eu acredito, com toda a honestidade que há no coração, que a resposta é tão importante, quanto permanecer fiel à ela. É saltar com os dois pés juntos, independente do tipo de terreno – às vezes a gente pula sabendo que pode afundar mas quem seria capaz de dizer se não vale (ou valeu) à pena?

É realmente como num jogo de xadrez; movemos as peças e precisamos aceitar que não há volta, que aquele movimento é final e é absolutamente inútil ponderar sobre ele após retirarmos a mão da peça. Mesmo sabendo disso, com carinho e ponderação deixamos a peça em seu lugar, fitamos a vida e dizemos “Sua vez”.


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Confissões de um Hermitão

Eu quis mostrar que podia como Apólo,
Carregar o mundo, quis mostrar que como Poseidon,
Era mestre do mar profundo.

Falhei, porque Deus sabe que sou homem,
E ser Deus nenhum não me cabe, sou fraco,
ah Deus, porque me deste tamanha carga consciente,
Deu não ser Deus mas normal como tanta gente?

Mas quem dirá, quem terá coragem de admitir
A fraqueza sem se envergonhar e escutar rir
os outros que estão por ouvir?

Tem vezes que sinto que o maior problema dos segredos
É serem ancorados em tolos, tolos medos.
Queria fossem como um beijo na bochecha,
Por mais simples que seja.

Queria subir ao topo do mundo e gritar
Mas temo que nem o céu iria me escutar.


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Estrangeiro por Medo

O despertar inibe o olhar
E o desespero vem se apoderar.
Olho pro mundo entre meus dedos,
Escondido e perdido em meus medos.

A beleza tinha de acabar e o dia tinha de começar
Mas não parece justo, não deve ser, não é.
Pinta-se um quadro escuro e desbotado
Onde não há você ao meu lado.

Como podem os sonhos ser tão bons
Que temo ir dormir para não acordar?
Como pode a vida ser tão repleta de sadismo
Que até mesmo eu me perco no pessimismo?

O sono me apavora completamente,
Crio o terror em minha mente
Pois temo estar acordado,
Temo estar dormindo
E do temor incapaz de me desvincilhar
Me perco na minha mente e no meu lar.
Faço-me estrangeiro por medo e digo
“Dormir? Não, ainda é cedo.”


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O Enforcado

A terra consumia o fogo do Sol no horizonte, meus ciganos e ciganas montavam acampamento e as cordas, tambores e mãos começavam já a praticar os primeiros sons que viriam a compor as primeiras canções na noite que seguiria. Pés tocavam o chão, sem haver separação alguma entre aquilo que era humano e o que era natureza, todos faziam parte de um só universo, dançavam em um só corpo. As cinturas que se ondulavam projetavam sombras na terra, permitindo que a grama fizesse parte na dança, refletindo o brilho temporário da fogueira central.
Palmas acompanhavam olhares e sorrisos, a música era um disfarce para que todos pudessem expulsar demônios, lançando-se no frenêsi do show de constrastes. Era uma desculpa para serem felizes, se olharem, se aproveitarem pois meus ciganos sabiam que a terra havia de expelir um dia o Sol e novamente eles teriam de se mover. Enquanto isso não acontecesse, o funeral continuaria.


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Escadarias Itálicas

As opções são tantas e tão variadas,
São como infinitos degraus em infinitas escadas
Levando sempre à um novo caminho,
Ainda que se ande tudo sozinho.

Eu quero chegar no topo mas não quero
Sei lá em cima tudo pára e me desespero.
Não, não quero. Como chegar sem chegar,
Usufruir sem lá estar?

A ironia da vida é ter sempre pra onde ir
Só parando quando finalmente morto cair.
E caminhamos sem chegar
Mas sempre tentando alcançar.


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Salto de Gerações

Abre os braços tal fossem asas,
No alto, muito além dos parapeitos da casas,
De costas ao mundo ele espera no telhado
Até o momento certo, faz seu fim controlado.
Ele se faz cair, um Ícaro que encontrou a luz
Voando até sete palmos abaixo duma cruz.

Enquanto isso, caminhamos normalmente,
Dentro da rotina, sem nada na mente.
Ele decidiu por si só morrer
E nós aqui, ocupados em viver.


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Vida de Velejar

A vida é um mar revolto,
É tentar nadar no infinito,
Se agarrar ao que é solto
- Tirar a sorte no palito.

Mas nesse mar insolente
Existe beleza, existe boa gente
- As notícias ruins virão e irão
mas, se conseguirmos salvar um momento,
Uma pessoa em seu elemento…
Tudo terá valido à pena,
Da dor mais horrível à arte mais serena.

E nadamos fazendo o bem
Antes vivendo com do que vivendo sem.


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Desfecho do Tetraedro

Todo errado do jeito certo,
No impulso do deserto
O mar do tempo cobre o céu
No luto de negro véu.

Choramos sem sentir a partida,
Cumprimentamos na hora da despedida.
Talvez seja a nossa juventude perdida.
Talvez sejam os estranhos, nós,
Polegares pedindo carona,
Sós nessa zona.

Eu jurei cruzar o deserto mas encontrei um mar,
Jurei te odiar mas não consegui deixar de amar
-Então vou assim, certo no meu erro
Mas sem desespero.

Como poderia qualquer um saber que era,
Era eu, era você, eramos todos
Impossíveis dentro do possível,
Incabíveis dentro do cabível.
Eramos e somos impossibilidades
-Mentiras entre verdades.

Amei. Errei. Pequei. Rimei. Sublinhei.
Ri. Chorei. Sorri. Questionei. Argumentei.
Parei.


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Apagando

Quando a soma humana dá errado,
Quando falta afeto e cuidado,
Quando sul vira vira leste
e norte não é oeste…
Eu me questiono se algum dia me importei,
Com o que você disse, com o que eu sei.

Eu continuo sem motivo pra acreditar
Que algo surge do nada, surge do ar,
Que é possível no horror supersticioso permanecer fiel
Às palavras de amor escritas num papel.
E me questiono se alguma vez me importei,
Com o que você não disse, com o que não sei.

Talvez seja assim mesmo, uma resposta sem pergunta,
uma solução sem problema, um fim sem começo.
Será que começa a vida então defunta?
Começa a queda antes do tropeço?
Me questiono se eu já me importei…
Com você, eu não sei.


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Auguri

Se a paixão é um bloqueio
Não quero passar,
Se for atraso, prefiro ficar!

Deixa os ponteiros correrem,
Deixa os segundos serem,
Amanhã não é ontem,
As horas que contem.

A vida se faz uma grande crônica
Com uma vista do futuro, catatônica.
Pois cada beijo, gesto, trejeito,
Vira história ao seu jeito.

“Você não sabe o que perde!”
Sem dúvida, mas ah…
Sei aquilo que ganho.


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Movimento em Falso

Tem vezes que parece que falta assunto,
Que tá tudo amargo, tudo imundo,
Que não há nada a ser escrito
Pois todos e tudo já foi dito.

Talvez seja verdade mas tal como os que vieram antes de mim,
Escrevo algo com começo, meio e fim
Pois sei que essa é a ordem das coisas,
Talvez não fosse, fossem as rosas roxas
e não fossem as telhas feitas nas coxas.

Mover pra trás é um atraso,
Ficar parado é fazer descaso.
A vida é um jogo de damas
Que termina nas camas…
Dos hospitais ou de nossas casas

Então que façamos as melhores jogadas,
Que nossas peças sejam bem colocadas,
Pra quando olharmos pra trás não possamos sentir saudade,
Livres para viver o presente sem maldade.
Felizes, contentes,
Com gentes.


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Agora, José; Sorria.

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