Inverno de Nossa Juventude
Passei da encruzilhada e cheguei em você,
Você, o lugar onde meus sonhos vem morrer.
Sua sombra engole a luz,
Você me enlaça e seduz.
É como flertar com a morte,
É errar ao criar a própria sorte,
É ir dormir hoje e acordar ontem
Sem saber do meio-tempo.
Você era uma tarde de Julho,
No escuro do carro éramos dois,
Quando pássaro nenhum fazia arrulho,
Deixávamos o resto do mundo pra depois.
Mas agora nossos dedos então entrelaçados
São apenas parte de amores passados.
Confissões de um Hermitão
Eu quis mostrar que podia como Apólo,
Carregar o mundo, quis mostrar que como Poseidon,
Era mestre do mar profundo.
Falhei, porque Deus sabe que sou homem,
E ser Deus nenhum não me cabe, sou fraco,
ah Deus, porque me deste tamanha carga consciente,
Deu não ser Deus mas normal como tanta gente?
Mas quem dirá, quem terá coragem de admitir
A fraqueza sem se envergonhar e escutar rir
os outros que estão por ouvir?
Tem vezes que sinto que o maior problema dos segredos
É serem ancorados em tolos, tolos medos.
Queria fossem como um beijo na bochecha,
Por mais simples que seja.
Queria subir ao topo do mundo e gritar
Mas temo que nem o céu iria me escutar.
Estrangeiro por Medo
O despertar inibe o olhar
E o desespero vem se apoderar.
Olho pro mundo entre meus dedos,
Escondido e perdido em meus medos.
A beleza tinha de acabar e o dia tinha de começar
Mas não parece justo, não deve ser, não é.
Pinta-se um quadro escuro e desbotado
Onde não há você ao meu lado.
Como podem os sonhos ser tão bons
Que temo ir dormir para não acordar?
Como pode a vida ser tão repleta de sadismo
Que até mesmo eu me perco no pessimismo?
O sono me apavora completamente,
Crio o terror em minha mente
Pois temo estar acordado,
Temo estar dormindo
E do temor incapaz de me desvincilhar
Me perco na minha mente e no meu lar.
Faço-me estrangeiro por medo e digo
“Dormir? Não, ainda é cedo.”
Lembro Como Fosse Hoje
O Sol de hoje derrete o gelo de ontem
O passado grotesco mantêm-se imutável,
Um gigante inalienável.
No festival eu te vi e te tive,
Brincamos de detetive
E nos descobrimos – culpados.
Posso ser destrutivo mas o desastre é só meu
Pois você não quis dividir do seu.
Fecho bem meus olhos pra você não ver
Minha alma desaparecer.
Talvez não sejamos feitos pra esse mundo
Mas então, quem o seria? Será que as coisas
de modo certo as faria?
Amanhã não chega, o tempo para em movimento,
Anda no mesmo momento.
Nunca é a nossa hora – era antes mas não agora.
O passado é um bicho grotesco,
Hediondo por ser tão determinado
A permanecer, passado.
Meu Reino por uma Resposta
Tenho vastas somas pra entregar à quem puder me dizer que sentimento é esse que me consome, que me move diante do perigo constante da rotina. Não é brincadeira mas as pessoas parecem não acreditar em mim quando afirmo oferecer uma recompensa pra quem puder me dizer… o que é isso?
Eu não sei e nem tenho como saber, minhas palavras só se estendem tão longe quanto deixa meu coração e essa sensação faz desbotar o vermelho do meu sangue – é mais do que eu aguento, é mais do que eu suporto.
Um dia eu achei ter encontrado a explicação, foi a resposta duma pessoa na rua com a qual eu esbarrei e, tão rapidamente quanto um segundo e ainda assim tão eterno como o chão que pisávamos, ele disse:
“-Saia da frente seu imbecil insignificante!”
E eu finalmente entendi o objetivo da vida e tudo mais. As pessoas são tão prestativas, a inteligência coletiva é de fato uma benção. Aposto que alguns estarão se questionando se estou no momento sendo sarcástico… a resposta, deixo à vocês pra descobrir. Afinal, aprendi que as coisas importantes na vida devem ter significado pois obviamente eu não parecia importar para o sujeito na rua.
O que isso tem haver com esse estranho sentimento que me inunda, você pergunta? Ah, tanto quanto o mar tem haver com a tartaruga. O mundo é um lugar muito estranho de se olhar quando a gente acredita que entende, porque… se sabemos explicar o mundo, saberemos nos explicar?
Eu, claramente, não sei. E sinto isso que não é nostalgia nem saudade, não é paixão nem piedade, não é maniqueísta – desconhece o bem, desconhece o mal. É como se simplesmente, fosse.
Talvez um médico venha no futuro me dizer que é um sopro no coração, que tenho algum problema cardiáco e que meus dias estão contados. Talvez. Enquanto isso prefiro eu acreditar que existe algo muito maior, algo que eu ainda não posso entender e que se os mistérios do mundo me estão claros, meus próprios mistérios ainda permanecem.
Eu me tornei meu próprio enigma a ser decifrado, numa jornada de uma vida inteira onde a resposta está sabe-se lá em que tempo e espaço. Não poderia estar mais feliz, completamente ignorante ao que será, ao que virá – a vida é uma deliciosa surpresa.
Pioneiro do Trópico de Capricórnio
Não posso prometer consertar o que não quebrei,
Acertar onde nunca errei. Não dá, não vou.
O mundo é cheio de loucura,
Medo e a eterna censura.
Me falam que é preciso tempo
E calma e jogo de cintura
Mas nesse processo tão lento
Só me cresce a amargura.
São muitas frases incompletas e meia-verdades
-Sobram mentiras, sobram maldades.
É como esperar numa estação que não existe
um trem que nunca chega
por alguém que nunca existiu.
Não serei o primeiro
Nem fui o último
-Não fui um dos que riu.
Livro Não-Aberto
Gritei pro mundo me ver,
Disse eu ser quem eu era
-Não ligou, estava nem ai,
Me deixou na espera,
Fez cair a ligação,
Esqueceu de coração.
Então mantenho um olho na porta
E um olho no mundo
-Pra ver quem tenta entrar,
Pra ver quem tenta olhar.
Cansei de ser um livro aberto
-Tornei-me um livro que precisa ser descoberto.
Uma história sem fim que termina
Mas que enquanto dura, contamina.
Lentamente, veneno de escorpião,
Disfarçado, camuflagem de camaleão.
Todos estamos perdendo alguma coisa,
Detalhes no fluxo da vida.
Não vou eu me tornar outra coisa perdida
Prefiro ser um grito que uma silenciosa despedida.
Se não sabem quem sou, não podem me descartar
Se não sabem quem sou, tem que me analisar.
Quem sabe um dia alguém me entende
Me olha e diz “Você mente.”.
Quem sabe.
Vida de Velejar
A vida é um mar revolto,
É tentar nadar no infinito,
Se agarrar ao que é solto
- Tirar a sorte no palito.
Mas nesse mar insolente
Existe beleza, existe boa gente
- As notícias ruins virão e irão
mas, se conseguirmos salvar um momento,
Uma pessoa em seu elemento…
Tudo terá valido à pena,
Da dor mais horrível à arte mais serena.
E nadamos fazendo o bem
Antes vivendo com do que vivendo sem.
Desfecho do Tetraedro
Todo errado do jeito certo,
No impulso do deserto
O mar do tempo cobre o céu
No luto de negro véu.
Choramos sem sentir a partida,
Cumprimentamos na hora da despedida.
Talvez seja a nossa juventude perdida.
Talvez sejam os estranhos, nós,
Polegares pedindo carona,
Sós nessa zona.
Eu jurei cruzar o deserto mas encontrei um mar,
Jurei te odiar mas não consegui deixar de amar
-Então vou assim, certo no meu erro
Mas sem desespero.
Como poderia qualquer um saber que era,
Era eu, era você, eramos todos
Impossíveis dentro do possível,
Incabíveis dentro do cabível.
Eramos e somos impossibilidades
-Mentiras entre verdades.
Amei. Errei. Pequei. Rimei. Sublinhei.
Ri. Chorei. Sorri. Questionei. Argumentei.
Parei.
Herança de Ícaro
A idéia de mudança está forte demais,
O coração sabe o que sente,
bate alto e a mente…
Não pára, jamais.
Como podem me pedir para engatinhar
Quando meu ímpeto é saltar?
Permeando os momentos e segundos,
Das extremidades até os cantos profundos.
É tarde demais para permanecer igual,
Ser esse mar sem sal.
Como podem me pedir para andar
Quando meu ímpeto é voar?
A.mor
Amar é muito simples,
Não entendo onde vê-se complicação
-minto, entendo só não concordo.
Eu poderia buscar mil desculpas e significados,
Dizer que amar vai além de fazer agrados.
Mas eu posso muito dizer
Sem ninguém convencer.
De fato, o Amor é simples de uma maneira boa
-O simples daquilo que é singelo,
Do que é bom, do que é belo.
Acho que o melhor jeito de dizer o que é Amar…
É quando viver acordado é melhor que sonhar dormindo.
Apagando
Quando a soma humana dá errado,
Quando falta afeto e cuidado,
Quando sul vira vira leste
e norte não é oeste…
Eu me questiono se algum dia me importei,
Com o que você disse, com o que eu sei.
Eu continuo sem motivo pra acreditar
Que algo surge do nada, surge do ar,
Que é possível no horror supersticioso permanecer fiel
Às palavras de amor escritas num papel.
E me questiono se alguma vez me importei,
Com o que você não disse, com o que não sei.
Talvez seja assim mesmo, uma resposta sem pergunta,
uma solução sem problema, um fim sem começo.
Será que começa a vida então defunta?
Começa a queda antes do tropeço?
Me questiono se eu já me importei…
Com você, eu não sei.
