Jardim dos Sentidos
Brotam as palavras na primavera das letras,
Despojadas de pudor,
Repletas de cor.
Nesse jardim que tanto cuidei e colhi,
Sinto que por amor,
quase o perdi.
Sinto que por amor,
venci.
Pois deixei minha memória em grãos
Para o vento levar
Para as formigas comerem.
Deixei a memória da minha mão na sua coxa,
A lembrança do seu cabelo escondendo seu rosto,
A memória do seu cheiro, do seu gosto.
Não deixei por descuido nem desapego,
Deixei com razão – pra alimentar a terra
e fazer crescer o que há no coração.
Hoje temos frutas frescas no pé,
Beijos plantados nos lábios,
servidos na cama, servidos no café.
Andando sobre Água
A batida é simples e me lembra outra canção -
Aquela que escuto quando ouço seu coração.
A ideia de você me inunda a alma
E eu tento manter a calma
Pois a saudade aperta e comprime,
A verdade é que até me deprime.
Enquanto isso, todos falam pra ir devagar
Mas não é questão de pressa
é só questão de amar.
E fico assim, piegas sem fim,
Recitando em plenos pulmões
sobre a ilha em que habitam
dois corações.
Deixa Estar
O problema do amor é que,
tanto quanto mais forte se amar,
mais fácil é de se magoar.
Eu ajo como tivesse o mundo desvendado
mas a verdade é que muito eu não sei
e se não erro é porque já errei.
Tem horas que é difícil entender
Que quem foi não é quem vai ser,
Mas não somos nossos pais nem
eles os pais deles.
Se peco é por querer sempre estar do seu lado;
na doença e na amargura, no amor
que acho que cura.
Mas preciso que você me deixe entrar
Na sua vida, no seu lar,
Pois sendo alpinista irreverente
prefiro entrar pela porta da frente.
Agora, José; Sorria.
É sem dúvida frustante o quão rápido o tempo se esvai quando estamos com quem gostamos. Horas se comprimem em memórias repletas de odores, sorrisos, abraços e apertões, leves e marcados, movimentos que não poderiam ser outra coisa senão afeto. E quando essas horas terminam e tudo que sobra é o solavanco do ônibus no caminho de casa, dá uma certa sensação de vazio e nos pegamos parafraseando Drummond em nossas cabeças.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
Mas, em tentando lidar com essa frustação do badalar e da abóbora, parte de mim grita respondendo. Seja como for a brevidade desses encontrões no tumulto que é a vida, cada segundo a mais é um segundo a menos, nos aproximando do final e afastando do começo – grãos de areia que percorrem um sentido só, sem nunca retornar, sem permitir um relance, uma segunda chance de aproveitá-los.
Mais do que nunca me faz sentido a palavra ‘conviver’. Ao viver com, partilhar experiências e criar memórias, estamos escolhendo ainda que de maneira inconsciente, à quem entregar parte de nossa vida – . E, no final da noite, não poderia eu estar mais feliz por quem eu escolhi e por quem me escolheu.
O Pintor de Paralelepípedos
Desde pequeno eu nunca entendi bem a idéia de dedicação – não que eu não soubesse o que significava mas eu de fato não me aplicava com a essência do que define a palavra. Minha mãe dizia pra eu me aplicar nos estudos, pro vestibular, pras provas… mas eu empurrava com a barriga, gerenciava o tempo, estudava muito pouco. Eu não via necessidade nem tinha vontade.
E os anos passam e a gente cresce. Algumas coisas mudam e outras tantas, permanecem quase como manifestações biológicas, como fossemos indivisíveis de certas manias. É como se eu tivesse nascido sem conseguir me dedicar.
Sei que as regras da sociedade exigem que seja dado tempo às coisas para que se formule frases com uma certa certeza. Eu bem poderia dizer “Decidi que vou construir um iate” mas a idéia pareceria tão absurda que muitos só acreditariam se eu de fato o fizesse. Pois bem. Hoje eu finalmente consegui enxergar em mim mesmo a elusiva dedicação, aquele segmento que impele ao ato, que sabe que realizando um bom trabalho a gente termina com uma sensação de um dia bem aproveitado.
Dois dias estudando e sinto isso. Será que vou continuar assim? Não tenho como dizer ao certo mas tem uma vozinha dentro de mim gritando “PODE APOSTAR!”. Começa a fazer sentido a metáfora da luz se acendendo sobre a cabeça do homem, dando-lhe idéias, respostas, soluções – pois alguma luz em mim se acendeu e estou vendo um caminho adiante, cheio de dificuldades mas criado com o melhor princípio que posso imaginar: o Amor.
Hoje eu sonhei acordado, não com um futuro impossível mas com o presente, esse presente que faz jús ao nome e, como uma boa história, garante ter tido um começo e promete-me um bom fim.
Casa sem Janelas
A poeira dos carros cria blocos cinzas de ar, as pessoas caminham sem ouvir o mundo, não as culpo – é muito barulho, o tempo todo. Almas deslizam pelo chão tal qual os papéis jogados pelas janelas, indo se ajuntar na boca dos bueiros, me alagando o domingo e cerceando minha liberdade.
Me escondo nas sombras dos galhos das árvores, tentando esconder o que me é precioso porque eu sei o que acontece quando borboletas encontram furacões. Só quem conhece o barulho ensurdecedor do silêncio sabe dizer que no bater de asas, desastres podem acontecer.
O som dos meus passos ainda ecoa no passado mas meus pés, não estão mais por lá. Tem vezes que acho que nem por cá eles estão e fico sem saber se já fui ou se estou indo. Mais fácil permanecer entre as sombras, elas sabem a hora do dia.
Quando chega a noite e tudo é sombra, não sou ninguém e ninguém sou eu. E então eu tenho uma idéia do que é ser maior que qualquer ser, é poder esticar meus braços e tocar opostos do mundo. De noite, estou eu sentado em sua poltrona, estou no seu diário e suas memórias, estou na fresta dos seus olhos, segurando sua mão. Nesse momento me torno algo como um Deus mas logo me lembro que por mais que eu esteja por ai e meus passos sejam ocultados pelo barulho do silêncio, nunca tocarei sua pele nem seus lábios, nunca poderei dizer que te amo, não poderei chorar nem rir contigo mas, o mais triste de tudo, nunca estaremos juntos despertos.
Serei sempre uma sombra e você sempre terá, à mim, os olhos fechados. Quem sabe talvez se você se deitasse no escuro de olhos abertos e permanecesse na noite desperta, eu pudesse passar por ai e a gente pudesse se conhecer. Quem sabe, quem sabe.
Monólogos de Duas Mãos
Se a gente se perder ou separar,
Você sabe onde me encontrar;
Na torre, na hora certa,
Não vai estar deserta.
Se eu te traduzir errado
Me corrija, se estiver do meu lado.
Na torre, na hora que o relógio marcar,
Quando quiser, pode falar.
Porque eu não devia ter que soletrar
Nem seu nome nem o lugar
E bem que a gente podia fazer
dos nossos monólogos,
Diálogos.
Porque é difícil esquecer – mas é difícil ser esquecido.
Então você sabe onde me achar,
Naquela hora, naquele lugar.
Aberração Urbana
Porque a verdade é que tenho muito pra falar, tenho tantas coisas que eu queria poder te contar mas você… você não poderia ouvir alguém como eu porque a sociedade é uma dama e sou eu um vagabundo – e o restaurante italiano faliu.
Ninguém está se importando em olhar o mundo através do meu prisma quando vêm me dizer como que eu deveria ser. São conselhos estranhos que criam aberrações pois por mais sinceras que fossem as intenções, faltariam as boas ações. É estranho viver num mundo que diz que prosa num deve rimar, de fato, é um estranho lugar. Ainda assim, aranhas tecem teias, crianças brincam em tanques de areia, artistas desenham sereias e caçadores caçam baleias.
Diante de todo o horror e a beleza misturados não faço-me parar porque o fim da canção ainda não chegou. E, como chuva, tendo começo, meio e fim, caminho eu desmanchando gotas e criando poças que viram lagos que viram rios que desaguam nos mares. Os céus em mim se refletem e as nuvens olham-se lá de cima, sua imagem aprisionada em minha forma no chão. Pois é, olham-me sem me ver, esperando que eu faça parte da norma e volte a chover.
Por um instante sou a tinta que escorre do graffiti recém-feito, um muro que grita em seu silêncio pictórico diante do gigante imóvel cinza que cresce a sua volta – é visto como um tumor colorido, um símbolo da desordem mas ninguém parou pra perguntar pras cores quais eram suas leis. O laranja ama o roxo, ama o preto – que muitos mais amam. Faz-se a lei do homem e de mais ninguém, também, pobres cores, não podem sentir e andam assim – combinando e descombinando, sempre com o cinza do concreto pairando.
E olho de novo o mundo, querendo muito te dizer. Queria te contar o quão livres nós realmente somos, mesmo que em pequenos espaços, pequenos gestos, pequenos momentos – eles nos pertenceriam e ninguém poderia roubá-los. Nessa polegada de liberdade você teria todo o espaço pro seu mundo e eu faria por certo que ninguém jamais ousasse tentar tirá-lo, fosse pela força das palavras ásperas ou pela brutalidade dos olhares. Queria te contar que eu lutaria todo e cada dia pelo seu sorriso pois se vivemos num mundo passageiro, quero eu morrer com as melhores memórias. Queria eu dizer que te amo muito e que faltam, nas línguas que conheço, palavra que pudesse definir a imensidão desse amor. Amo-te pois vivo, Amo-te simplesmente por Amar.
Com Carinho,
O Ladrão de Versos.
Lembro Como Fosse Hoje
O Sol de hoje derrete o gelo de ontem
O passado grotesco mantêm-se imutável,
Um gigante inalienável.
No festival eu te vi e te tive,
Brincamos de detetive
E nos descobrimos – culpados.
Posso ser destrutivo mas o desastre é só meu
Pois você não quis dividir do seu.
Fecho bem meus olhos pra você não ver
Minha alma desaparecer.
Talvez não sejamos feitos pra esse mundo
Mas então, quem o seria? Será que as coisas
de modo certo as faria?
Amanhã não chega, o tempo para em movimento,
Anda no mesmo momento.
Nunca é a nossa hora – era antes mas não agora.
O passado é um bicho grotesco,
Hediondo por ser tão determinado
A permanecer, passado.
Inner Monologue
The sandstorm was asked to come
But the sand was nowhere
And the storm was none.
Tunnels collapsed
As time elapsed
but oh what shame
Pharaohs were buried the same!
Sandworm meet sandstorm,
Sandwich meet swampwitch
-Scare, scare, scareradish.
It is no wonder that this land
Is not wonderland
-I won’t wonder why.
-Your alliteration is shy.
A.mor
Amar é muito simples,
Não entendo onde vê-se complicação
-minto, entendo só não concordo.
Eu poderia buscar mil desculpas e significados,
Dizer que amar vai além de fazer agrados.
Mas eu posso muito dizer
Sem ninguém convencer.
De fato, o Amor é simples de uma maneira boa
-O simples daquilo que é singelo,
Do que é bom, do que é belo.
Acho que o melhor jeito de dizer o que é Amar…
É quando viver acordado é melhor que sonhar dormindo.
Caça-Tesouros
Se eu fosse jovem ainda,
Cantaria até mais tarde.
Se eu fosse jovem ainda,
Não sentiria tanta saudade.
Se eu fosse jovem,
Enterraria meus sonhos numa ilha deserta,
Faria um mapa, seria minha intimidade secreta.
Se X marca tesouro,
Marca sonho mas nunca ouro.
Passaria a vida a buscar,
Tesouro que enterrei pra encontrar
- Seria uma boa vida,
Uma jornada sem despedida.
Me cercaria da melhor tripulação,
Que busca o que busco, que quer o que quero,
De coração, não me desespero.
Em lugar melhor não podia estar,
Mar melhor não podia navegar.
