Casa da Lembrança – Parte 01
Vozes e luzes difusas, foi esse o meu ponto de partida, minha última memória ou, como aprendi a chamar, meu momento. Para poder me entender, começo dizendo que é preciso entender que essa narrativa não trata da vida nem da morte mas sim daquilo que vem depois – depois, quando os sete palmos de terra já cobrem o corpo.
Eu sempre acreditei que quando morríamos, nada acontecia. Eu não achava que íamos ao céu, inferno nem purgatório, eu achava que a gente simplesmente parava de funcionar. Como autómatos, como qualquer animal, simplesmente, parávamos. É um engano comum que eu realmente não poderia responder não tivesse, como tantos outros, morrido.
Porque quando morremos, vamos sim à um lugar – mas já vou avisando que não é o que você espera que seja, as nossas convenções não existem, há somente o espaço da memória e o espaço do esquecimento.
—
Vozes e luzes difusas. Tal como comecei meu relato, comecei minha jornada. Lembro de vozes próximas, lembro de minha esposa, lembro dos médicos… lembro do barulho das rodas da cama enquanto rodavam pelo hospital. Lembro do silêncio da madrugada, enquanto não conseguia dormir e o soro pingava. Mas acima de tudo, lembro dos meus olhos se fechando quando eu os queria abertos. Lembro da agonia e lembro, então do nada. Toda a dor, todo o som sumiu pra dar espaço ao vazio, um silêncio absoluto, uma completa paz. Quando consegui abrir os olhos de novo, me encontrei fora do hospital, sem aparelhos, livre e ao mesmo tempo, com a sensação de que algo errado havia ocorrido.
A minha volta, colinas e um horizonte que parecia muito próximo, tudo com um toque muito etéreo, real e ao mesmo tempo, impossível. Deitado de costas, olhando o céu, vi um homem que parecia pertencer à este lugar. Vestia ele uma toga com cores em eterna mudança. Confuso, perdido, fiz o que qualquer viajante faria: abri minha boca e pûs-me a perguntar.
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-Oi, desculpa atrapalhar. Fala português?
-Entre outras tantas. Deixa eu adivinhar, você é novo por aqui?
-Não sei, onde é aqui?
Respondeu-me com um sorriso de deboche:
-Ninguém sabe direito, cada um fala uma coisa e os filósofos ainda nada concluíram. Na minha opinião? Essa é a casa da lembrança.
-Continuo perdido. Em que país é isso?
-Você não é o mais brilhante dos seres… não é num país, não é nem no mundo eu acho. Pense um pouco… além.
E riu-se ao terminar a frase, achando graça do que tinha falado.
-Além? Além da aonde?
-Além, simplesmente. Já ouviu falar de purgatório? Pois então, eu diria que o conceito é bastante próximo.
-Não é possível, eu estava no hospital até agora a pouco. Eu estava lá, eu sei que estava.
-Pois bem, estava. Obviamente não está mais, como você já deve ter percebido. Se não tiver percebido, então na sua escolha nem vai ter muito a perder.
-Que escolha? Do que é que você está falando? Para de falar em charada e me explica, por favor, onde é isso, quero voltar pra casa.
-E eu aqui achando que era fácil me entender, desculpe, os séculos fizeram de mim um cínico. Você está morto, está bem? Isso é o inferno, o paraíso, é o que você quiser chamar, tanto faz. Pode chamar do que for, vai continuar sendo a mesma coisa. Antes de mais nada, qual a tua graça?
-Perdão?
-O seu nome.
-Lúcio, é Lúcio.
-Você e mais muitos. Teu sobrenome?
-Porque você quer saber meu sobrenome?
-Pra roubar a sua alma pois eu sou o diabo. – Franziu a testa e levantou uma sobrancelha. Me afastei, em dúvida entre deboche e verdade, nada fazia sentido. -Pare de ser tão obtuso e faça-me o favor de dizer seu sobrenome pra eu poder te dar seu novonome.
-Eu não preciso de um nome novo.
-Não um nome novo, um novonome. Você vai precisar pra num ser confundido com os muitos Lúcios.
-Muitos? Então tem mais gente? Onde?
-Uma coisa por vez, você quer correr sem saber engatinhar? Novamente, o seu sobrenome.
-Albuquerque
-Albuquerque…
-De Lima.
-Bastante ordinário mas seu novonome será Alilúmaquerio.
-Não quero esse nome, já tenho o meu!
-Mas você precisa dum novonome, como espera ser você se não tem do que ser chamado? Tá bom, que tal Lumaquerio? Não conheço ninguém com esse novonome.
-É horrível.
-Mas a questão não é o novonome ser bonito, a questão é nomear quem você é criatura.
-Mas eu já tenho um nome! – repeti irritado com a insistência daquele homem.
-Tem. Mas aqui, o seu nome não serve – só talvez se você fosse muito famoso ou único mas confia em mim, não é o caso. Só serve seu novonome. E agora que você tem do que ser chamado, Lumaquerio, dá pra te explicar melhor as coisas.
E então o estranho procedeu pra me explicar como tudo em que eu havia acreditado até então estava errado. Assim como Ainori foi-me um guia, eu serei o seu – não se preocupe, é fácil estar morto.
—
A crença comum, segundo religiões e afins, é a de que ao morrer, vamos parar em algum lugar. Pode ser um purgatório ou pode até ser um reincarnação. O lugar que se chega é pré-determinado pelas ações de um indivíduo. Aquela velha história de que, se uma pessoa é boa, vai para o céu, que se é ruim, reincarnará como uma barata e por ai vai. Mas o que você me diria se eu te afirmasse, com a certeza que apenas um morto poderia ter, que para a eternidade, tanto faz o que você fez durante a vida? E se eu te dissesse, que assassinos e suas vítimas habitam o mesmo espaço?
Pois, prezado leitor, sinto que devo lhe ser o mensageiro da realidade fora da realidade: todas as almas desembarcam no mesmo porto. Agora, é importante ressaltar que a partir da chegada neste lugar onde começa a eternidade, cada um decide para que caminho seguir. Existe uma dicotomia essencial que define a pós-vida, existe uma escolha importantíssima que afirma ou nega todo o passado – todas as vidas.
A memória. Se você tivesse a opção de esquecer a dor da morte, o horror dos monstros que te trouxeram pro seu fim, a insuportável saudade dos que ainda vivem… você esqueceria? Pois é assim que funciona aqui: existe o lado do esquecimento e o lado da lembrança – e a escolha de qual lado habitar define para sempre quem você foi, é e será.
Alguns acham que o céu é o lado do esquecimento, pois as pessoas de lá parecem bem felizes, ignorantes de qualquer mal. Mas tal como desconhecem o mal, desconhecem as grandes belezas, as maiores obras humanas. Eles nunca poderiam saber dizer quais são as cores do por-do-Sol ou qual a beleza de uma música orquestrada – nem saberiam o que é uma batuta. Às vezes acho que eles parecem felizes só por não saberem fazer qualquer coisa que não seja sorrir, abestalhados.
Agora que você está devidamente apresentado ao pós-mundo, acho devido te dar um novonome – é impossível trafegar por aqui sem isso. Carleitir, não… Caroleitor. Isso, esse vai servir.
Imunidade
-”Eu sonho com instantes, momento breves, é como se… é como se o sonho fossem vários sonhos, nem sei explicar. Num momento estou à beira de um vulcão encarando o horizonte, noutro estou na sala de espera de um hospital. A verdade é que por mais que pareçam sem sentido… há alguma coisa nisso tudo que eu entendo. Não sei o que é”- reclinou-se na cadeira do consultório. Demorou-se olhando detalhes com os quais já havia se acostumado: o telefone com números dos ramais, o tapete alinhado com as poltronas, a mesinha de madeira com uma garrafa d’água. – “Em todos os relances e fragmentos do sonho, existe algo que eu, no sonho mesmo, tenho consciência mas evito olhar. É como se… ao olhar, eu estaria aceitando uma verdade ou até mesmo, estaria tornando real”
-”E que verdade seria essa?” – perguntou seu terapeuta, olhando-o através de seus óculos de aros finos, sempre com uma caneta e um bloco à mãos.
-”Não sei. Talvez a de que vou herdar dos meus pais mais do que apenas uma fazenda velha e dívidas. Talvez a de que fazem treze anos que… treze anos que Sofia morreu e eu não consegui superar isso. Outro dia mesmo, fui colocar a mesa e percebi que havia colocado um prato à mais, com todo o resto sabe? Guardanapo, garfo, faca, copo… Eu só me toquei quando fui me servir.” – apertou as próprias mãos como se lembrasse do modo como Sofia havia as apertado.
Houve um silêncio na sala, os olhos de Davi se encheram mas ele não ousou chorar.
-”E eu me pego pensando que quis adiar ter filhos quando ela queria e agora… agora meu pai acabou de voltar da UTI e minha mãe continua a esquecer as coisas. Acho que é medo de me encontrar sozinho nesse mundo. Porque… porque o mundo é grande e eu nunca me senti tão pequeno.” – Davi deixou seu olhar fixado sobre a parede, enxergava sem ver, sua mente pairava na idéia de ter de cuidar sozinho de sua mãe com Alzheimer. – “Não me parece muito justo, está tudo errado, tudo.”
-”Como está o quadro de sua mãe?” – perguntou o inflexível especialista.
-”Piorando, cada vez mais rápido. Tenho medo de chegar em casa hoje e ela nem lembrar do seu filho. Tenho medo de acordar amanhã com o mesmo problema e me assustar ao ver um velho no espelho. Me pergunto até se essas conversas todas que temos vão servir pra alguma coisa, nós dois sabemos que essa droga é hereditária, que eu posso muito bem vir a ter também. Meu maior medo é esquecer tudo, é como se minha vida fosse apagada. Se eu não tiver como lembrar de algo e não houver mais ninguém que me conheça vivo, é como se realmente não tivesse acontecido. Doutor, temo estar virando um fantasma”
Como não Ser
Sussurros ao fundo de uma guerra entre sexos, ferindo soldados gerados do atrito, da tensão que ali havia. Caminhavam de mãos dadas – laços falsos forjados, frágeis, prontos para quebrar ao menor sinal de ofensa do lado opositor. Opostos. Haviam esquecido como completar sentenças, haviam perdido algo que nunca tiveram de fato e culpavam: os anos, os filhos, o trabalho – nunca às próprias ofensas.
Jazia em seus rostos a feição de uma segunda-feira, um final de domingo perpétuo de um sonho que sonharam ter havido – mas não há, nunca houve. De tão acostumados com a briga e a perseguir um ao outro, haviam por completo esquecido o que fazer depois, o que fazer quando aquele que havia lhe prometido fidelidade até a morte estava ao alcance de um beijo.
Sussurravam enquanto as bombas caiam, tudo a sua volta ruia mas suas mãos estavam firmes, seguras de uma farsa que havia tornado-se confortavel.
Era trabalhoso demais ser sincero, viviam sua mentira.
Só Metade
Movia sua mão como um autômato, clicando, trabalhando, sua mente um vazio, um espaço que havia perdido o sentido. Por um segundo, como se despertasse do transe, parou. Olhou sua mão esquerda, seu anel, abateu-se – de repente todo aquele vazio foi preenchido por pensamentos sombrios, flertava naquele momento com as sombras, sentindo sua alma beirar o abismo, sentindo-se encarar o fundo do sem-fim que lhe afligia, forçou-se de volta ao feitiço do autômato.
Aqueles eram os dias intermináveis dos anos mais longos de sua breve vida.
O final do expediente não lhe trazia alegria pois no trajeto de volta, sua mente estaria novamente livre para imaginar os horrores que os homens escondem. O fecho de sua mala ao ser travado emitiu um som oco, como martelasse algo vazio. Segurou a alça com cuidado, fúnebre – carregava seu próprio caixão, acreditava ele que ia morrer sozinho.
-”Vai pro happy hour com o pessoal?” – seus pensamentos foram interrompidos por um colega de trabalho, ao qual, a despeito de sua solidão, respondeu:
-”Não vou não, hoje não dá, preciso terminar uns relatórios ainda”.
Mentia. Ia voltar para uma casa vazia repleta de cômodos por onde ela havia passado, jantaria, só, tomaria banho, só, dormiria, só, numa cama grande demais para uma pessoa só. O travesseiro dela ainda estava ali, deitava ele de costas pra parede, achando não saber o porque mas sabia. Num misto de costume e saudade, deitava como se esperando que ela mais uma vez pudesse deitar ali. Queria voltar a ter o que uma vez lhe foi presenteado, queria ele poder desembrulhar seu olhar e fitar o presente do sorriso dela.
“O seu sorriso…” – pensou e estremeceu, o breve relampejo de nostalgia no seu rosto se contorcendo para baixo, num arco que ele conhecia, seu olhos encheram e ele se encolheu.
Fechou os olhos tentando se fixar naquele instante que nunca mais poderia ser, naquele sorriso, naquele pescoço delineado pela luz do abajur, naqueles olhos que brilhavam ao vê-lo, nos delicados seios, quase escondidos pelos lençóis. Dor. Sentiu o coração apertar como nunca, levou a mão ao peito e contorceu-se – não, não era um ataque cardíaco, era a dor da rotina sem ela. Era a dor da perda, a dor de saber que todos aqueles vídeos, todas aquelas fotos, que aquele anel… eram a única prova de que ela havia existido e escolhido ele para compartilhar sua vida.
Pensamentos sombrios invadiram sua linha de raciocínio:
“Deveria ter sido eu. Não você, não você…” – Quis-se morto mas por medo, vergonha e instinto, ficou apenas no querer. Ainda assim, não conseguia aceitar a idéia de que a havia perdido. “Não” – pensou – “Eu não perdi, tiraram, roubaram de mim, esses cachorros, esses filhos da puta imprestáveis, restos de bosta, escrotos, escrotos filhos da puta” – tomado por essa cólera, tomou feições assombrosas, transpirando a dor. Flagrou-se e tentou manter a compostura, amenizar sua própria face como se mudando seu rosto mudaria o que aconteceu. Quis que estivesse tudo bem, que ela saísse pela porta do banheiro, que ela estivesse só escovando os dentes e logo iria deitar. Com ele.
Encontravam-se separados por barreiras intransponíveis. Ele poderia cavar, poderia prometer mudar, poderia… e em tanto poder, nada de fato podia. Nada mudaria o que havia acontecido, nada poderia reverter aquilo que já fora infligido. Restava agora somente um pedaço de pedra com um nome e uma data.
Virou-se na cama, fitando agora o teto, a luz da Lua cheia entrando pela janela aberta – aberta tal como ela gostava -, projetavam-se sombras por todo o quarto. As mesmas sombras, todos dias. Todos os dias, sem ela. Ergueu sua mão, feita negra pela penumbra. A luz capturada no metal de seu anel fez a situação parecer surreal. Ainda vestia ele a aliança, nunca deixara de querê-la, nunca deixara de pensar nela e ainda assim, nunca mais a veria. Era como se algo em sua mente impedisse ele de entender que ela estava morta.
“Que saudade, que merda” – virou-se pro lado, encarando a parede, de costas pro lado vazio da cama. Fechou os olhos, tentando se enganar que ela iria logo lhe puxar para seu lado, que iria sentir seu cheiro novamente… Não aguentou, pôs-se a chorar, primeiro lágrimas tímidas, escorrendo como fossem um carinho em seu rosto – lembrou das mãos dela, de como ela gostava de passar os dedos no seu queixo sentindo sua barba. A imagem fez transbordar – chorou, copiosamente. Chorou até seus olhos ardidos se fecharem por completo e permitirem, mais uma vez uma noite de descanso.
Andando sozinho por mil milhas
O caminhar que só conhecem
aqueles que se mantêm
por sós acompanhados.
Passos inaudíveis
de vidas desligadas
-pegadas para a chuva apagar.
Quem dera sempre poder
ter ao rastro companhia.
-pernas que se movam com as minhas.
Teus Versos
Tentei te cantar rosas
em versos que brotavam
de gotas de falso nanquim.
Tentei te contar sonhos
em tramas então tecidas
só para te envolver.
Me é tão claro que vejo você
no canto dos meus olhos,
quão tão triste é virar
ao vazio.
Na manhã seguinte me apaixono de novo,
com sorte escrevo mais umas linhas e,
quem sabe, se a fortuna me for gentil,
você se apaixona por mim.
De novo, dia após dia.
Álbum de Família
Quero uma foto nossa,
piegas, de mãos dadas
-sorrindo.
Pois tenho eu esperanças de um dia,
olhando pra trás,
ver fotografias nossas
-desbotadas.
Envelheceremos juntos em papel foto-sensível
mesmo quando não for possível
mais nenhum dia ter.
Tudo que já foi será,
sépia.
A Vida em um Gesto
A mala é arrumada meticulosamente,
com cuidado e esmero como fosse
o algodão à ela confiado
feito de cristal.
A minha mente em devaneio
se imagina ao seu lado
e por isso entenda por que
sou tão particular.
Não preciso de muita bagagem,
nem baús, arcas ou grandes malas.
O que me é mais precioso
eu levo na mão
- basta segurar a sua.

Imunidade
-”Eu sonho com instantes, momento breves, é como se… é como se o sonho...Como não Ser
Sussurros ao fundo de uma guerra entre sexos, ferindo soldados gerados do atrito, da...Só Metade
Movia sua mão como um autômato, clicando, trabalhando, sua mente um vazio, um espaço...Andando sozinho por mil milhas
O caminhar que só conhecem aqueles que se mantêm por sós acompanhados. Passos...Teus Versos
Tentei te cantar rosas em versos que brotavam de gotas de falso nanquim. Tentei te contar...
