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Prosa - Posts
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Entre o Céu e a Terra
Posted by Otto Robba in Prosa on 29. Sep, 2009 | No Comments
Ele caminhava pelo canto da sala quando mandaram-no ir lavar o rosto. Mas isso não poderia apagar nada do que aconteceu, cada vez que a água passava pelo seu rosto e seus olhos se fechavam, ele via e revia a cena. Sua adrenalina excessiva mascarava a dor na sua perna e a vermelha mancha em sua roupa era um atestado do que havia acontecido. A professora fitou-o, pálida, da frente da sala, seus colegas em silêncio faziam sua parte. O menino havia criado um monstro, sem dúvida, um que não seria esquecido tão cedo. Pensou em seus pais e suas expressões, pensou nas últimas palavras das vítimas de sua aberração, tão preciosa e que ele olhava com tanta carinho, um orgulho quase paternal misturado com sua própria vaidade. Ele sorria – e lavava suas mãos. Criara algo que realizaria seus desejos sem que tivesse de sujar suas mãos, já lhe bastava a mancha vermelha que se espalhava, um rastro de seu ato. Vestígios de sua monstruosidade – pintara ele um Sol sorridente comendo planetas pequenos. Ah, criança, destruidora de mundos.
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Criação de expectativa: Afinal, brincar com a mente alheia é divertido.
Meu Reino por uma Resposta
Posted by Otto Robba in Prosa on 24. Sep, 2009 | No Comments
Tenho vastas somas pra entregar à quem puder me dizer que sentimento é esse que me consome, que me move diante do perigo constante da rotina. Não é brincadeira mas as pessoas parecem não acreditar em mim quando afirmo oferecer uma recompensa pra quem puder me dizer… o que é isso?
Eu não sei e nem tenho como saber, minhas palavras só se estendem tão longe quanto deixa meu coração e essa sensação faz desbotar o vermelho do meu sangue – é mais do que eu aguento, é mais do que eu suporto.
Um dia eu achei ter encontrado a explicação, foi a resposta duma pessoa na rua com a qual eu esbarrei e, tão rapidamente quanto um segundo e ainda assim tão eterno como o chão que pisávamos, ele disse:
“-Saia da frente seu imbecil insignificante!”
E eu finalmente entendi o objetivo da vida e tudo mais. As pessoas são tão prestativas, a inteligência coletiva é de fato uma benção. Aposto que alguns estarão se questionando se estou no momento sendo sarcástico… a resposta, deixo à vocês pra descobrir. Afinal, aprendi que as coisas importantes na vida devem ter significado pois obviamente eu não parecia importar para o sujeito na rua.
O que isso tem haver com esse estranho sentimento que me inunda, você pergunta? Ah, tanto quanto o mar tem haver com a tartaruga. O mundo é um lugar muito estranho de se olhar quando a gente acredita que entende, porque… se sabemos explicar o mundo, saberemos nos explicar?
Eu, claramente, não sei. E sinto isso que não é nostalgia nem saudade, não é paixão nem piedade, não é maniqueísta – desconhece o bem, desconhece o mal. É como se simplesmente, fosse.
Talvez um médico venha no futuro me dizer que é um sopro no coração, que tenho algum problema cardiáco e que meus dias estão contados. Talvez. Enquanto isso prefiro eu acreditar que existe algo muito maior, algo que eu ainda não posso entender e que se os mistérios do mundo me estão claros, meus próprios mistérios ainda permanecem.
Eu me tornei meu próprio enigma a ser decifrado, numa jornada de uma vida inteira onde a resposta está sabe-se lá em que tempo e espaço. Não poderia estar mais feliz, completamente ignorante ao que será, ao que virá – a vida é uma deliciosa surpresa.
Contos do Camaleão
Posted by Otto Robba in Prosa on 02. Sep, 2009 | No Comments
Primeiro Ato: O Grande Baile
Eu fitei as pessoas na festa, tudo era muito claro pra mim. Cada gesto, cada olhar… eu entedia, lia os significados contidos em cada um, como fossem frases visuais. Alguns diriam que é abuso do meu conhecimento mas quem pode culpar um homem por tentar desvendar aqueles que o cercam? As mentiras, traições e meia-verdades não eram minhas, eram dos outros. Eu era apenas tal como um figurante na vida alheia, um mero observador.
Por necessidade e por motivos da razão, conclui eu anos atrás que o melhor método de interagir com o mundo era, de fato, aceitando as máscaras sociais, as convenções impostas, agindo dentro dos conformes aos olhos alheios. Levaram-se anos de observação e eu admito, um desabrochar da intuição natural, mas eu havia me tornado a pessoa perfeita. Não havia momento social onde eu estivesse deslocado, não havia estrato nem sotaque que soubesse me derrubar. Eu era um perfeito camaleão e o meu redor era eu.
A festa era da filha dum poderoso juiz da corte brasileira, festa de casamento, veja você. Trajes suntuosos, escadarias e garçons tão bem arrumados que quase me senti num filme sobre as velhas cortes inglesas, ainda mais pelo fato do juiz vestir de fato uma peruca que me parecia um tanto quanto estranha – mas lógico, esse comentário ficava apenas em pensamento, como eu disse… ele tinha poder, de uma forma ou outra. (more…)
Humanidade Concreta
Posted by Otto Robba in Prosa on 22. Aug, 2009 | No Comments
Corro na escuridão, sem medo e sem fim, corro sem saber o que vai ser de mim. Não posso parar mas o horizonte não chega, me desespero, a chuva começa a cair e começa o meu cinza a descolorir, corro mais rápido, tentando ir além do horizonte, mas parece que nada adianta e o que tento em nada resulta, mas ouço a música e consigo entender que o final se aproxima então aperto o passo, meus músculos gritam de dor e rasgam por debaixo da pele, o ritmo é frenético mas tudo se move tão devagar.
As gotas produzem canções nunca antes ouvidas, estourando lentamente, se multiplicando, criando correntes. Meu pés espalham as gotas, o chão des-desaba a minha frente, os vãos se preenchem e as lacunas não me permitem sair de minha louca corrida. O espaço vazio do horizonte se preenche de blocos e mais blocos, tento saltar para a imensidão, para o nada, mas os chão me segue, me persegue.
A música vai chegando ao fim, os acordes são os finais tais como meus sinais vitais. Sinto meu corpo fraquejar e com tudo aquilo que tenho e posso, dou meu último salto, conseguindo ir além do chão que se constrói por onde vou, caindo num abismo, num mar negro mas quando finalmente mergulho… Não há beleza igual, não há nada tão simple, não há nada tão belo.
Posso descansar em paz.
Cápsula do Tempo
Posted by Otto Robba in Poesia, Prosa on 25. Jul, 2009 | No Comments
Filho, escrevo essa lição hoje para ter certeza que ela estará pronta à tempo. Porque o mundo, filho, é louco. Mas o pior é quando ele é normal.
Vão te julgar pelas aparências e referências, vão ignorar seus atos, seus pensamentos, vão querer que você se comporte numa caixa. (more…)