Cápsula do Tempo
Filho, escrevo essa lição hoje para ter certeza que ela estará pronta à tempo. Porque o mundo, filho, é louco. Mas o pior é quando ele é normal.
Vão te julgar pelas aparências e referências, vão ignorar seus atos, seus pensamentos, vão querer que você se comporte numa caixa. (more…)
Malabar
Corro dum passado que me persegue, de promessas não cumpridas e tempos compridos, corro do tédio e do horror, corro pois não posso ficar parado.
Os gritos há muito proferidos ainda preenchem meus pulmões, me falta espaço para o ar e ainda assim não consigo mais gritar…
A vida muda e passível se contenta com meu passado, mas eu não posso viver num mundo achatado. Não posso. Não quero. Não. Não!
E corro, já sem roupa nem grilhões, corro sem gritos, só com canções. Minha bagagem, histórias pro presente, sonhos e pesadelos em mente… Conecto-me com toda gente, faço da vida o presente, tecido de momentos tão frágeis que passaram tão perto de nunca haver, não fosse eu tolo, não fosse minha insistência correr.
Mas olho pra trás podendo finalmente sorrir, porque o que foi não é o que está por vir. Então continuo fazendo meu presente.
Construo-me ser humano, faço-me homem feito. Consciente e imperfeito, mas ainda assim, homem feito.
E olho para frente, sorrio e corro, hoje não fugindo mas simplesmente, indo.
Sempre adiante, na imensidão constante, tão nítida e distante.
*suspiro*
Alguém saberia me dizer, porque fico triste sem nem entender?
Será, será que alguém conseguiria me explicar, como me sinto afogar em dia de Sol e como me sinto paz em dias de chuva?
Não sei, não sei se há explicação, só sei que quero uma canção, mas como fazer… não consigo dizer por palavras o que não se diz por sons, nem por imagens, nem por sensações…
É algo… maior. Está nos micro-movimentos do rosto que denunciam a minha angústia, porque verdade seja dita, a rua à minha frente é bastante clara e estou bastante lúcido. Mas o garfo que a divide só leva à incertezas e, por mais que eu não queira que o medo tome as rédeas, o volante parece me escapar ao alcance das mãos e o freio foi cortado.
Aqui estou eu, homem crescido e perdido, lendo um mapa que não foi escrito pra mim, vendo um caminho sem saber onde quero chegar.
Tenho dois eventos que fico imaginando de maneira recorrente, um deles é geralmente enquanto estou por aí. Imagino um ponto luminoso descendo no horizonte, explodindo e numa velocidade fantástica fulminando absolutamente tudo em seu caminho. Uma bomba atômica azul, um clarão só e nada mais. Não sei porque, é um pensamento horrível, mas me traz um certo conforto, pensar que a vida inteira que passei sozinho, não iria morrer só. Morrer numa cama de hospital é muito chato.
O outro é um tanto quanto estranho. Estou andando numa planície de concreto, rasgada e quebrada no horizonte. O céu é negro e infinito, o chão é cinza, quase não há luz, tento correr pras bordas para saltar pra longe dali, mas sempre que corro, blocos de concreto surgem e se unem, formando pontes e novas planícies, nunca me deixando sair. Corro e corro mais, salto e salto, até a hora que consigo tornar-me mais rápido que os blocos que surgem e mergulho na escuridão, atravessando um corpo d’água, totalmente transparente e tão tranquilo… Gosto de pensar nisso no ritmo da música “All the trees in the field will clap their hands”, do Sufjan. Não sei, me sinto tão…liberto.
Comecei a realizar variações desse pensamento, com uma chuva de balões cheios de água colorida atingindo minha planície cinza de concreto, transformando o mundo em cores, eu me torno tinta e no meu mergulho no mar transparente, me dissolvo na água para fazer parte duma efusão de cores tão bela.
Preciso achar o meu caminho, todo esse tédio está me matando, me matando, me matando.
Cansado
Hoje eu caminhei na chuva, pra sair dum lugar e chegar noutro. Diria eu que voltava pra casa, mas nunca soube se de fato ali cheguei. Hoje, na chuva eu caminhei.
Justo hoje, de todos os dias, uma mulher parou para me pedir direções e eu até conhecia o lugar, mas não sabia informar. Saco. Estou eu cruzando a ponte para chegar na estação de trem e um transeunte me pergunta por direções pruma avenida que nem conheço, novamente não consigo ajudar. Me passa pela cabeça, “Como posso eu ajudar esses estranhos se não consigo me encontrar em mim mesmo?”. Fui cantando no caminho, era uma música dum desenho japonês ainda por cima, mas juro que é uma boa música…
I don’t feel a thing
and I stopped remembering
The days are just like moments turned to hoursMother Used to say
if you want, you’ll find a way
Bet mother never danced through fire showerWalk in the rain, in the rain, in the rain
I walk in the rain, in the rain
Is it right or is it wrong
and is it here that I belongI don’t hear a sound
Silent faces in the ground
The quiet screams, but I refuse to listenIf there is a hell
I’m sure this is how it smells
Wish this were a dream, but no, it isn’tWalk in the rain, in the rain, in the rain
I walk in the rain, in the rain
Am I right or am I wrong
and is it here that I belongWalk in the rain, in the rain, in the rain
I walk in the rain, in the rain
Why do I feel so alone
For some reason I think of home
Fico nesse vai e vêm de otimismo e pessimismo, incapaz de melhorar de vez, incapaz de afundar de vez. O mormaço está me matando, queria eu cair ou ascender duma vez.
Sonhos II – Partilhando da Loucura e da Sanidade
Estava voltando eu sabe-se lá de onde, indo para casa creio eu, quando passo em frente de uma inusitada banca, o dono reclama dos jovens e afins, só interessados em bobagens, eu viro-me pra ele e pergunto “Você tem algum livro de arte?”, ele abre um sorriso e me mostra uma série de livros ensinando técnicas e afins, folheio um deles, mostra um homem com uma armadura que me lembra o Juggernault, dos X-Men, com olhos azuis (ou seriam verdes?) expressivos, perdidos na escuridão feita pelo capacete. O estilo é absolutamente Hq-esco. Acho que dá pra pagar no cartão, mas ponho o livro de volta na estante. Não sei se quero, são tantas opções, qual será a certa? É curioso como parte da banca lembra outras lojas e afins que já tive em outros sonhos… Eu pergunto pra ele se ele teria emprego pra oferecer, ele se vira orgulhoso e contente, estamos fora de sua banca/loja, em frente a porta dos fundos creio eu. Neva, estamos agasalhados, ele responde minha pergunta como se esperando eu tomar conhecimento do que há em volta. “Preciso que você prove primeiro sua vontade e dedicação”, ele me diz… ou algo assim.
Parto eu como se sabendo o que procuro, como se soubesse chegar onde não conheço. A memória torna-se fraca… mas sei que, em minha missão, tomo parte no resgate/evacuação de um bando de pessoas do que parece ser uma estação em alto mar. Uma das pessoas a ser movida é no entanto uma baleia, não muito metaforicamente (ela parece perder os traços humanos e tornar-se mais baleia a cada instante). Para movê-la, preciso dar fortes empurrões, ela desliza e se arrasta na direção que empurro. As pessoas ficam exasperadas com a tal baleia e reagem freneticamente, assustadas, a baleia irrita-se e acaba por esmagalas com golpes de suas nadadeiras. Empurro-a pra fora da estação, a multidão segue, posiciono a baleia numa espécie de pier, um homem desesperado está ao seu lado e agita-se, disparando uma arma aos céus. A baleia rapidamente mata-o com nadadeiradas. Sou avisado como fosse tudo mera fantasia que falhei no meu objetivo de evitar que morresse gente. O pier nos liga à terra, começamos a ir pro chão firme, conversando sobre como teremos de comer capivaras para sobreviver. Então notamos que os bichos parecem estar fugindo da terra, como houvesse algo muito ruim vindo. A multidão começa a se preocupar. Vemos um pássaro gigante, com cabeça de gente fugindo, vemos então as capivaras de que falávamos fugindo também. Começamos a fugir. Há muito desespero, gritos, algo está errado, parece que a estação está sendo atingida por algo, não sei ao certo, só sei que caio na água e nado, nado como fosse um golfinho, mas não respiro feito peixe nem nada, preciso de ar. Agarro-me numa garrafa, ironicamente, de água. Ela estava cheia de ar, no entanto. Respiro-o e vou adiante, vendo pessoas caídas na água, nadando, tábuas de madeiras e destroços prum lado e pro outro. Meu mundo se torna o embaixo d’água. Nessa profundeza azul, eu nado e vou, fugindo de não sei o que, indo para não sei aonde. Nado velozmente contra o que parece ser a vitrine de um prédio submerso, pulo contra o vidro, quebrando-o e podendo respirar um pouco. A cena é a de uma bar, mas é pequeno, algo mesmo de alguém rico. Tenho a sensação de alguma maneira que pertenço, pelo menos em parte, ali. Um homem um tanto esnobe vestindo roupão de seda me cumprimenta de longe, eu ali, estatelado no parapeito da janela, a água do lado de fora parece não querer vazar pra dentro. Acho que aquele homem era irmão meu, mas irmão de sonho, não da vida real. Ele tem uma calma enervante, como não estivesse um mar do lado de fora de sua janela e não estivesse eu encharcado e estatelado.
…
Nos meus sonhos, duas mulheres me agradaram, eu agradava elas. Era no meu quarto, apesar que a porta parecia estar do outro lado, a cama… a cama era minha. Veio uma de cada vez, como cenas absolutamente diferentes num filme/linha do tempo. Uma tinha longos cabelos pretos, a outra, cabelos castanhos presos em um nó. A de cabelos castanhos e bochechas rosadas foi a primeira, meio que como indo e vindo da vida, estando lá só por um momento, só por sexo e nada mais. Ela me agradou e eu agradei ela, mas passou. Depois veio a mulher dos cabelos negros, com um aroma irresistível, virando meu mundo de cabeça pra baixo, fazendo eu sacrifícios por ela, ela sacrifícios por mim. Um olhar como que se perdendo e encontrando no outro, não querendo deixar de lado. Um olhar diferente, que assusta um pouco por sua intensidade mas que sente-se tão certo e tão bom que faz-se notar que o frio na barriga é uma delícia e que, aquele olhar, logo ali… é sublime. Entre beijos e agrados, ficamos enamorados. Acordo assustado e feliz, triste e calmo… Conheço ambas mulheres que vieram no meu sonho. Estou confuso. Aquela menina do sonho mexeu comigo, acordei me sentindo apaixonado… e era por ela, não por quem normalmente seria… Preciso desvandar esse sonho… e admito, meu olhar sobre ela mudou muito com o passar do tempo.
…
E é isso que sonhei. Agora, escrevendo, consigo ver coisas que não vi, significados que deixei passar… tem tanta coisa sendo dita aqui… ah, se eu pudesse gravar meus sonhos como fossem filmes.
Meus Sonhos
Meus sonhos andam estranhos ultimamente, mais vívidos, mais lúcidos, mais explicativos… confesso que em muitos momentos me assusto com as minhas facetas que ele revela, com as imagens que vejo… Testemunhei no meu subconsciente a batalha pela minha própria salvação, pelo meu amor, pela minha vida… testemunhei o meu lado negro que me torna um monstro maior e, horripilantemente, mais humano que os homens. As faces na multidão caminham indiferentes enquanto pareço eu ser um dodô perdido, um exilado. Mas quando minha natureza sombria vem à tona… são incapazes de sequer balbuciar meia-palavra, com um pânico que toma conta, com as cores fugindo ao rosto. Estou cansado de ser sabotado em minha intenções honestas.
Estamos nós ali, sem nem saber ao certo, nem talvez sendo importante, saber quem somos. Conversamos sobre coisas triviais que nos importam, sobre garagens misteriosas que não sabemos o que guardam. A água, vinda sabe-se lá de onde, nos molha os pés, inocente à princípio, sobe e começa a nos ameaçar, a água vai nos afogar. Eu corro e grito para vocês correrem, minha angústia é grande de que algo aconteça, mas não posso olhar pra trás, preciso correr, a maré sobe e as ondas se tornam violentas. Vai formando-se um mar e engolindo-se a terra, corremos todos para o morro, eu grito e clamo e chamo, “Venham! Subam! Por aqui!” e nós vamos e subimos por lá, num morro tortuoso, escalando com as ondas quebrando em nossas costas. A grama encharca-se de água e sal, chegando ao topo, veêm-se o que parecem ser raízes, grito “Segurem firme! Agarrem as raízes!”, no meu desespero, agarro-me… mas não numa raíz e sim numa cauda de macaco. Será que o mar irá me levar?
Curso de origami de verão… ela me diz isso depois de descer do carro, me olhando com olhos que me chamam mas nunca fechamos o espaço entre nós. O cenário muda, nós não. As vozes em volta mudam, nós não. Por tudo que é sagrado, que desejo é esse que me consome, que vem e tudo mais some? Sonhei com o fim do mundo, que eu tentava o impedir… como posso então sonhar que acabo eu com o mundo, logo a seguir?
A verdade é que todos os meus sonhos não se contradizem, mas me trazem coisas importantes, um teco de ordem ao meu caos. Conversam entre si para me dizer coisas novas, contam-me sobre minha natureza, meus anseios, meus desejos… mas me dizem coisas que ninguém mais jamais dirá. Me fazem ver o que ninguém tem coragem de dizer…
Quantas vezes podemos dizer…
Hoje eu acordei depois de ter testemunhado a batalha pela minha alma.
Uivos de um Lobo Solitário
Tome cuidado, porque se você deixar, o mundo vai te mastigar e cuspir, em mil pedaços disformes. Salte pra longe disso, quebre os tabús, faça o bem e entenda bem – você é um dos poucos. Dos poucos que sobraram sem tanto pudor, que enxergam o mundo com um teco a mais de cor, talvez sejamos todos loucos, mas por tudo que é sagrado, que seja assim e não numa melancolia do não-fazer, do não-ser.
Cansei… cansei de calar minha voz, cansei de não ter uma voz, cansei de não me permitir ver nem fazer… cansei de estar cansado. É hora de mudar, é hora de eu subir ao palanque e fazer o discurso, de aceitar minha condição de humano, de negar tantas condições impostas.
Se eu odeio, odeio, se eu amo, amo. Desculpe, aliás, não…não me desculpe, deixe-me ter a culpa, é minha mesmo, sinto tudo isso e não me condeno. Sou quem sou e ponto. Não poderia ser mais ninguém e, te digo já, não sei quem vou ser em cinco minutos. Porque eu também mudo… mas eu não acho ruim mudar, desde que seja uma evolução e não um retrocesso. Minto, sei quem vou ser daqui a 5 minutos. Sei onde vou estar daqui a 5 anos. Sei quem vou ser em 50 anos. Não importa se a sorte vai conspirar ao meu favor ou contra, não importa… porque neste breve momento de paz, eu sei exatamente quem sou e o que quero. Não importa se eu morrer nos próximos 4 minutos… pois vou morrer sabendo quem eu sou. Não importa se eu não tiver documentos, nunca morrerei indigente.
Vou continuar vivendo assim, sem me arrepender de um grama do meu ser, sem me arrepender de não ter feito ou não ter dito… porque não dá para viver sendo um quarto de nós mesmos, escondendo tanto…
Esse sou eu, sem máscaras, sem correntes sociais, este sou eu, dizendo que quando amo, é intensamente…tem vezes que acho que nunca amei, tem vezes que acho que amei uma vez, talvez duas. Quando sofro, sofro muito, afundo até profundezas que conheço bem e choro, pouco me importando com o mundo em volta. Quando quero, vou atrás, não tenha dúvida alguma disso. Meu riso é sincero, meu sorriso também. Vou te ouvir, vou te escutar, nunca ignorar.
Talvez essa minha loucura toda seja ideal, talvez… nem sei bem mais o que dizer… só sei que não devemos ser um quarto de quem somos…nem devemos ver as coisas como um quarto do que elas são.
Sentidos Ressentidos
As línguas processavam as palavras que iam e vinham entre as paredes da sala. Eu, eu não estava lá, estava em outro lugar pois meus olhos fitavam uma obra-prima, pendurada ali, invisível e tão bela. O alumínio barato da janela fazia-se de moldura e através do vidro sujo pintava-se um espetáculo silencioso de um mundo em ebulição.
Acabei me distraindo com a aula e perdi o quadro que acabara de se formar – e desfazer -, os ramos da árvore ainda balançavam, denunciando o pássaro que por ali passara, sem se deixar imortalizar na moldura.
A árvore mexia-se ao vento… Estaria ela também tentando escapar do meu quadro? Não a culpo, assim como também não quero ficar enclausurado aqui, não é justo que ela fique presa em tão pobre moldura quando não há moldura que a contemple por inteiro.
Estou preso aqui dentro por correntes de palavras e sinapses, fadado à observar meros fragmentos do mundo, belos, mas incompletos e tão etéros quanto possível. As imagens me fogem pois existe algo além dessas paredes, existe um espaço pra onde ir, talvez… talvez seja tudo de fato tão maior do que conseguimos contemplar, talvez… tocam os relógios, meu mundo deixa de ser a claustrofóbica sala e se torna um conjunto de corredores fervilhantes.
O que irá meu quadro dizer quando eu não o puder mais ver?
Entre Ramos e Cascas e Troncos e Lascas
Perguntei à uma amiga se ela pularia de uma árvore, ela me disse que não. Perguntei se a decisão dela mudaria se houvesse a vida de alguém importante em jogo, instantaneamente ela me respondeu que pularia.
O que me vem em mente é a importância que não damos aos pulos por nós mesmos. De certo modo, um pulo que altera uma vida não é nada mais nada menos que uma decisão. E quantas decisões fazemos inconscientemente que alteram pra sempre tantos futuros? E não me refiro apenas ao meu ou seu futuro… mas ao de todos.
O que aconteceria se Einstein tivesse virado um músico, visto que essa era uma de suas grandes paixões?
O que aconteceria se o padeiro da esquina nunca tivesse vivido o bastante para virar padeiro?
O que aconteceria?
É impossível dizer pois as possibilidades são infinitas, portanto só posso dizer que uma coisa é certa. A vida deve ser levada, ainda que de maneira lúdica, como um percurso de Parkour. Devemos continuar nos movendo, fazendo saltos de precisão e sabendo cair. Não só, mas devemos sempre nos concentrar nos saltos, até mesmo nos mais triviais, pois podemos sempre tropeçar. Não faz sentido perder a cabeça com as coisas à toa, não deve-se perder o respeito por um obstáculo imponente, mas, mais especialmente, não deve-se nunca desistir, porque a vida não é nunca onde irá se chegar nem de onde se veio, ela é onde se está. Podemos ter vindo de um lado e querer ir para o outro, mas enquanto nossas aspirações podem mostrar quem queremos ser, é o caminho que de fato fazemos que mostra quem somos.
As palavras são belas e devem ser honradas, mas no final, as árvores de que pulamos e o chão em que caímos é que mostram a marca de nossos pés.
Vamos falar sobre Paranóia.
Tem gente que é loucamente normal e acha a rotina toda muito ruim… mas te garanto que é bem chato ser normalmente louco.
Em certos momentos me sinto como estivesse eu preso em uma rocha no meio do mar, numa solidão tão absoluta que ela engole minha cores e vontades, deprimo-me. O mundo se torna um tanto mais cinza… tento me defender com um sorrisso forçado, tentando fazer graça quando não sinto-a, tentando criar alegria quando ela em mim não há. A verdade é que, se não consigo eu a felicidade… ao menos quero tentar fazer com que os outros a tenham. Parece louco mas gosto de me ver como um possibilitador… dentre todas as bobagens que falo, já vi as pessoas se descontraírem, permitirem-se ser um teco mais bobas, um teco mais brincalhonas. Passamos tanto tempo como se tudo fosse tão sério, é bom às vezes brincar, sonhar, imaginar…
Imaginação… minha maior aliada na minha consciente solidão. Desde pequeno ela me protegeu, me acolheu, me nutriu. De maneira ou outra, sou o resultado dum mundo real-imaginário. Pode parecer estranho e até errado… mas eu gosto. Gosto de imaginar diálogos que nunca poderiam acontecer, cenas impossíveis, desejos concretizando-se… Não só, mas em qualquer coisa que eu possa querer fazer, a imaginação sempre está ali, me servindo. Jamais seria capaz de escrever o que escrevo não tivesse em minha cabeça estabelecido o absurdo como um caminho plausível. Um dia eu estava andando na rua e vi um rato na calçada. Ele me olhou com olhos como de quem pedia acolhimento. Por um breve momento, aquele ali foi o meu rato de estimação. Por um momento, ele existiu além da ordinária horda de ratos que infesta a cidade, além das estatísticas e probabilidades, além do fato dele ser uma praga contaminando a cidade… por um momento, ele foi Mickey. Passei adiante dele e aquela história veio ao seu desfecho, nunca mais vi Mickey.
Minha vida toda me disseram para não usar a frase “Na verdade” porque ela é relativa… mas o texto é meu então a verdade é minha, e a verdade é que eu tenho orgulho do que escrevo, do que faço. Não quero dizer que é algo necessariamente de alta qualidade… mas é algo que é bom, ou tenta sê-lo. O fato é que a minha imaginação é a única companhia que carrego em todos os momentos. Quando eu estiver só, estarei comigo mesmo e imaginarei algo. Quando for necessário, verei algo que ninguém terá visto. Buscarei questões e respostas fora do padrão, porque quero, porque imagino… tenho orgulho sim do meu reino subconsciente, isso fica claro. O que não fica claro é o que estou querendo dizer nesse ensaio.
Acho que na verdade não tenho nada para dizer… só queria desabafar que é chato ser normalmente louco, mas que existem vantagens na loucura.
Dos Bons Dragões e Dos Astros
Como humanos nossa maior falha está talvez em nossa maior ambição. Criamos belas montarias sonhando em algum dia voar, sonhando em, quem sabe, o mundo poder abraçar. Mas percebemos que por mais rápidos que sejamos, as distâncias ainda são as mesmas, o mundo ainda é grande, não passa nossa montaria de um pesado elefante.
Vemos nos olhos alheios as verdades que nunca se calam, das mentiras que vivemos, temendo mostrar-nos à luz, como fóssemos tão efêmeros que bastasse isso para nos apagar da realidade.
Existem certas coisas que são tão preciosas que causam um arrepio ao passo que as sentimos. O bom, o belo, o verdadeiro… guiando numa simplicidade racional e sentimental aqueles que conseguem parar para observar, no meio da escuridão que se faz, um foco de luz. Os raios do Sol, que tocam nossas peles e erguem nossos pêlos, tornam-nos apreciadores de algo belo que não pode ser comprado, de algo que não está largado atrás de vitrines para empoeirar e fora se jogar. Intocável mas nos tocando, nos muda e molda, em homens e mulheres melhores. Um beijo debaixo do Sol é muito mais quente.
Ainda acredito na humanidade, ainda acredito que há a possibilidade de nossas belas montarias aladas nos permitirem abraçar o mundo. Existem, dentre nós, boas pessoas, cujo ânimo persiste em face das dificuldades, em frente à seus demônios… pessoas que sabem expor e denunciar a realidade, pessoas que lutam por boas mudanças,que são em seu âmago altruístas e não atadas à meros interesses políticos e afins… Pessoas tolerantes, fortes, que amam, que choram, que coram, que riem, que torçem o nariz, que se enganam… Pessoas que são, antes de mais nada… pessoas.
Talvez não seja possível que façamos algo que abrace o mundo… mas se permitirmos que a luz do Sol toque cada grão de cada rocha, então o mundo terá sido abraçado – nem que seja pelo menos uma vez.
O Peso das Palavras
O que realmente dizem as palavras?
As respostas simples às soluções complicadas, as complicadas situações criadas por meras sílabas, os fonemas errados que acabam por dizer tudo, os sinônimos ambíguos que confundem porque querem confundir… Afinal, o que é que se pretende dizer e, mais ainda, por que em tantos momentos, não se diz?
As palavras, quando ditas com sentido e veracidade requerem coragem, requerem honestidade, carregam uma força que a espada desconhece – É na pena onde reside a ponta da lança. Os injustos, os imorais, os rudes, os fracos, os ingênuos, os mentirosos, os imbecis, os raivosos, os enfurecidos, os furiosos, os irracionais e tantos mais, não tem como entender que a pena manuseia-se como uma lança e que manuseia-se para o bem. Vêem na estocada uma chance de fazer o inimigo sangrar ao invés de ver a chance de manter o perigo longe dos outros homens de bem.
Não só negam a força da pena como negam o escudo da moralidade. Um escudo deve ser preservado, mantido em bom estado, em certos momentos, renovado. Um escudo não existe para nos escondermos atrás dele, deixando que o arranhem e deformem só para podermos nós ficarmos intactos. Como um escudo é para o soldado, a moral é para o homem – Uma extensão de seu corpo ao mesmo tempo que um traço identificador de quem és. Um soldado nunca deve abandonar seu escudo nem sua lança, fazendo-o, arrisca não mais soldado – nem homem – ser.
Se lhe parecer apropriado não usar a pena para a verdade dizer, se lhe parecer apropriado esconder-se como uma cobra atrás das morais e valores, se acreditas em manter-se em omissão, se lhe parecer adequado não fazer jus nem ao bom, nem ao belo e nem ao verdadeiro – Por favor, nunca tenha nenhum herdeiro.
Se lhe parece plausível caminhar o caminho dos justos, compreendendo os sacrifícios que deverás fazer – faça-o. Deixe aos tolos e imbecis o deboche, às tuas palavras, teu sangue arroje, senão por outro motivo do que ser melhor fazê-lo do que não fazer.

