Casa sem Janelas
A poeira dos carros cria blocos cinzas de ar, as pessoas caminham sem ouvir o mundo, não as culpo – é muito barulho, o tempo todo. Almas deslizam pelo chão tal qual os papéis jogados pelas janelas, indo se ajuntar na boca dos bueiros, me alagando o domingo e cerceando minha liberdade.
Me escondo nas sombras dos galhos das árvores, tentando esconder o que me é precioso porque eu sei o que acontece quando borboletas encontram furacões. Só quem conhece o barulho ensurdecedor do silêncio sabe dizer que no bater de asas, desastres podem acontecer.
O som dos meus passos ainda ecoa no passado mas meus pés, não estão mais por lá. Tem vezes que acho que nem por cá eles estão e fico sem saber se já fui ou se estou indo. Mais fácil permanecer entre as sombras, elas sabem a hora do dia.
Quando chega a noite e tudo é sombra, não sou ninguém e ninguém sou eu. E então eu tenho uma idéia do que é ser maior que qualquer ser, é poder esticar meus braços e tocar opostos do mundo. De noite, estou eu sentado em sua poltrona, estou no seu diário e suas memórias, estou na fresta dos seus olhos, segurando sua mão. Nesse momento me torno algo como um Deus mas logo me lembro que por mais que eu esteja por ai e meus passos sejam ocultados pelo barulho do silêncio, nunca tocarei sua pele nem seus lábios, nunca poderei dizer que te amo, não poderei chorar nem rir contigo mas, o mais triste de tudo, nunca estaremos juntos despertos.
Serei sempre uma sombra e você sempre terá, à mim, os olhos fechados. Quem sabe talvez se você se deitasse no escuro de olhos abertos e permanecesse na noite desperta, eu pudesse passar por ai e a gente pudesse se conhecer. Quem sabe, quem sabe.
‘Uma gota não faz tempestade’
O mundo se converteu num lepidóptero colorido, tentando alçar vôo sem que ninguém perceba o ruflar de suas asas geográficas. Mas, parando em silêncio dá até pra ouvir a sua canção. Soa que nem as ondas do mar, indo e vindo, rolando nos grãos de areia, deixando-se deslizar e infiltrar, desmontando quebra-cabeças de cascalho, ano após ano.
Já diziam os indígenas, não herdamos a terra dos nossos pais mas emprestamos-na de nossos filhos. É como uma grande obra que ninguém pode ver o começo, ninguém pode ver o fim mas todos sempre estão no meio. Ao nosso modo, somos gotas que compõem esse mar que vai vir e moldar a pedra pras próximas ondas mas, tal como gotas, nós sozinhos não somos o mar.
Se é pra escolhar como viver ‘in media res’, que seja então de maneira jovial, carregando no peito amor – mesmo defrontando a má ironia, o cinismo humano. As pessoas perderam seu caminho – mentira, algumas nunca o tiveram – e esquecem de saber ouvir, saber falar. A narrativa perdeu espaço pra fotos de viagem que ninguém quer ver mas todo mundo quer mostrar.
Fere-me como os amigos tornaram-se ocasionais e a sinceridade está em declínio – eu entendo que mentir faz parte da natureza humana mas, às vezes, é desnecessário. Torna-se ainda pior quando a mentira é visível e sabemos da farsa. Não adianta esconder atrás de rostinhos bonitos o pecado e a indecisão – ninguém é perfeito, é preciso aceitar as pessoas tal como elas são.
Afinal, somos parte de um todo e a maré que te embala, me embala também. As pedras que você lasca, lasco também. Somos cúmplices no amor e na guerra, na ação e na inação. Prefiro então tornar você cúmplice do meu amor e da minha vontade – quem sabe a gente não molda as pedras do jeito certo, milímetro por milímetro, deixando a luz fazer sombras da espuma do mar. Quem sabe a gente não faz vida.
Raízes
De joelhos, tentando respirar um pouco de ar, ignorando o suor que escorre da testa e acumula-se nos cílios, tentando manter os olhos focados no que está adiante. São tantas escolhas e ações que devem ser feitas que, muitas vezes, perdemos de vista o que realmente importa.
Sempre tivemos a vida como mundos acontecendo em paralelo e achamos que deveríamos nós também agir em múltiplas coisas. Perdemos o caminho. Faz-se a obra um passo por vez, sempre. Somos homens e não máquinas. Uma pintura não se faz por vários traços ao mesmo tempo mas por pacientes pinceladas que permitem-se ser ações humanas.
Eu estava perdido até hoje mas finalmente, dentre todos os momentos, entendi, entendi de fato como devo agir, como me interpretar e que devo, muito, deixar fluir aquilo que está no âmago. Não é uma questão de fazer tudo certo mas sim buscar fazer o melhor. Não é fazer algo só porque será bom agora mas porque será bom para os filhos dos meus filhos. Não é aprender a arte da guerra para fazê-la mas sim para proteger aqueles que não a sabem.
Desse amalgama, eu renasço. Com menos medo, ainda que o tenha, com menos fantasia, ainda que o tenha. Com sonhos mais vivos e fortes, ainda que o pesadelo venha, com mais honestidade e mais fiel à mim mesmo e à terra.
Hoje eu durmo sob o mesmo céu que meus ancestrais olharam.
Matemática – Faz-me Amar
É difícil de explicar porque gosto tanto da matemática,
As pessoas acreditam que ela torna o mundo todo muito exato, muito regrado, sem liberdade, sem alma…
Como se no meu ceticismo, não houvesse beleza nem milagres, somente… números.
Mas enquanto todos passam apressados, cá estou eu, sentado, olhando as nuvens,
Consciente de que esse momento é único, que aquelas nuvens jamais vão se repetir.
Que assim como tantos, todos um dia devemos partir.
Ela vem nos dias de chuva, nas gotas que caem, obdecendo uma série de regras e leis,
Pingando, gotejando e refratando. Suas sombras se projetam em minha face,
É pura e simplesmente matemática, a base do bom, do belo e do verdadeiro.
É a matemática que me diz o quão bela a vida é, por ser um milagre em si que,
Diante de todas as possibilidades, foi esse rumo que a vida tomou.
As chances de que os pais dos pais tivessem seus filhos, que tiveram por vez os seus…
Cada geração seguinte é um milagre ainda maior.
Sabe também porque eu adoro a matemática?
Porque ela sabe que é no abraço e no beijo em que os corações estão mais próximos,
Ela sabe que dedos entrelaçados são mais difíceis de se separar,
Ela me faz ver meu amor por milagres…
Porque as chances de existirmos e nos encontrarmos são tão remotas…
E mesmo assim, acontece.
O Último dos Aquarellas
Nesse tumulto do dia-a-dia eu caminhava como qualquer outro o faria – apressado, estressado, preocupado. Entrei no metrô na altura da Sé, espremendo-me entre blocos humanos de braços e pernas difusos num borrão de sacolas, bolsas e malas vestindo ternos.
Entrei, pra meu desespero, sem me dar conta que todos no vagão estavam lentamente morrendo daquilo, comecei a me desesperar, o coração começou a apertar e bater alto, minha gravata me estrangulava, eu a retirei e joguei no chão, olhararam pra mim como fosse eu esquisito mas eles ali, tornando-se pálidos e sem vida, lentamente morrendo e tornando-se parte do cinza da cidade. Eu suava frio. Pressionando-me contra toda sorte, consegui escapar por uma pequena brecha por onde mal passaria um infante. Cai no chão da estação, arfando, joguei minha mala pra longe e sai correndo em direção a luz na saída, esbarrando em pessoas confusas e ouvindo algo gritar que eu deixara cair minha mala.
A luz do Sol tocou o meu rosto e eu chorei, ainda assim se obstruia o céu com gigantes de concreto – senti como o mundo se fechasse e os conjuntos desconexos de olhares que me acompanhavam atropelavam-me num ímpeto tal que quase rolei de volta à estação devoradora de homens. Corri pela avenida, desviando-me dos estranhos seres que esboçavam gaguejos de possíveis palavras mas nunca conseguiam terminar uma sentença. Corri tanto quanto minha narrativa e meus pulmões me permitiram. Sem ver escapatória, ajoelhei, tentando pensar. Um organismo cinza me abordou com uma voz imperativa, rude, agressiva, temi o pior e voltei a correr. Eu corri, corri muito, corri como correm os inocentes culpados fogem de seus demônios.
Achei um muro, pulei um muro, cai na… grama. Corri mais um pouco e subi numa árvore – e, pela primeira vez desde que eu nasci, consegui ver o horizonte mas o céu… o céu estava cinza!! Parece que minha batalha estaria perdida mas, eis que, para minha salvação, um senhor, tão humano quanto eu, o primeiro que via em anos, portando um conjunto enorme de balões coloridos olha-me naquela árvore e, explicando-me o mundo sem dizer uma palavra, soltou os balões menos dois. Aqueles pontinho coloridos subiram alto no céu cinza e eu entendi, ainda mais quando ele me deu um balão vermelho, que se a gente realmente procurar, pode achar a nossa cor. E, se a gente se sentir particularmente ousado… pode ser até que nós entreguemos ao mundo um teco dela.
Aberração Urbana
Porque a verdade é que tenho muito pra falar, tenho tantas coisas que eu queria poder te contar mas você… você não poderia ouvir alguém como eu porque a sociedade é uma dama e sou eu um vagabundo – e o restaurante italiano faliu.
Ninguém está se importando em olhar o mundo através do meu prisma quando vêm me dizer como que eu deveria ser. São conselhos estranhos que criam aberrações pois por mais sinceras que fossem as intenções, faltariam as boas ações. É estranho viver num mundo que diz que prosa num deve rimar, de fato, é um estranho lugar. Ainda assim, aranhas tecem teias, crianças brincam em tanques de areia, artistas desenham sereias e caçadores caçam baleias.
Diante de todo o horror e a beleza misturados não faço-me parar porque o fim da canção ainda não chegou. E, como chuva, tendo começo, meio e fim, caminho eu desmanchando gotas e criando poças que viram lagos que viram rios que desaguam nos mares. Os céus em mim se refletem e as nuvens olham-se lá de cima, sua imagem aprisionada em minha forma no chão. Pois é, olham-me sem me ver, esperando que eu faça parte da norma e volte a chover.
Por um instante sou a tinta que escorre do graffiti recém-feito, um muro que grita em seu silêncio pictórico diante do gigante imóvel cinza que cresce a sua volta – é visto como um tumor colorido, um símbolo da desordem mas ninguém parou pra perguntar pras cores quais eram suas leis. O laranja ama o roxo, ama o preto – que muitos mais amam. Faz-se a lei do homem e de mais ninguém, também, pobres cores, não podem sentir e andam assim – combinando e descombinando, sempre com o cinza do concreto pairando.
E olho de novo o mundo, querendo muito te dizer. Queria te contar o quão livres nós realmente somos, mesmo que em pequenos espaços, pequenos gestos, pequenos momentos – eles nos pertenceriam e ninguém poderia roubá-los. Nessa polegada de liberdade você teria todo o espaço pro seu mundo e eu faria por certo que ninguém jamais ousasse tentar tirá-lo, fosse pela força das palavras ásperas ou pela brutalidade dos olhares. Queria te contar que eu lutaria todo e cada dia pelo seu sorriso pois se vivemos num mundo passageiro, quero eu morrer com as melhores memórias. Queria eu dizer que te amo muito e que faltam, nas línguas que conheço, palavra que pudesse definir a imensidão desse amor. Amo-te pois vivo, Amo-te simplesmente por Amar.
Com Carinho,
O Ladrão de Versos.
Um Quarto de Rearranjo, Dois Terços de Liberdade
Hoje eu parei para arrumar meu quarto – nunca mais serei o mesmo.
Joguei fora tanta coisa que assustei minha família, chama-me minha irmã de “Budísta”. Joguei fora mementos de ex-namorada, joguei fora desenhos e textos e provas, joguei fora esculturas, joguei fora cartões de aniversário e telegramas. Ainda assim, por mais que à minha frente residam não menos do que meia dúzia de grandes sacos de lixo, continuo achando que joguei fora pouca coisa. Verdade que muito será doado – pelo menos três grandes caixas com objetos em bom estado, isso sendo que nem vi ainda que roupas doar.
Termino aqui, orgulhoso do meu desapego, confiante de saber quem sou mesmo se hoje mesmo tudo virasse cinzas num incêndio. Não poderia estar mais feliz tendo feito essa limpeza do passado, essa esterilização de boa parte do que parecia me aprisionar. Me sinto, mesmo que ainda não completamente, livre e sei quem sou. Hoje, durmo contente.
O Enforcado
A terra consumia o fogo do Sol no horizonte, meus ciganos e ciganas montavam acampamento e as cordas, tambores e mãos começavam já a praticar os primeiros sons que viriam a compor as primeiras canções na noite que seguiria. Pés tocavam o chão, sem haver separação alguma entre aquilo que era humano e o que era natureza, todos faziam parte de um só universo, dançavam em um só corpo. As cinturas que se ondulavam projetavam sombras na terra, permitindo que a grama fizesse parte na dança, refletindo o brilho temporário da fogueira central.
Palmas acompanhavam olhares e sorrisos, a música era um disfarce para que todos pudessem expulsar demônios, lançando-se no frenêsi do show de constrastes. Era uma desculpa para serem felizes, se olharem, se aproveitarem pois meus ciganos sabiam que a terra havia de expelir um dia o Sol e novamente eles teriam de se mover. Enquanto isso não acontecesse, o funeral continuaria.
Entre o Céu e a Terra
Ele caminhava pelo canto da sala quando mandaram-no ir lavar o rosto. Mas isso não poderia apagar nada do que aconteceu, cada vez que a água passava pelo seu rosto e seus olhos se fechavam, ele via e revia a cena. Sua adrenalina excessiva mascarava a dor na sua perna e a vermelha mancha em sua roupa era um atestado do que havia acontecido. A professora fitou-o, pálida, da frente da sala, seus colegas em silêncio faziam sua parte. O menino havia criado um monstro, sem dúvida, um que não seria esquecido tão cedo. Pensou em seus pais e suas expressões, pensou nas últimas palavras das vítimas de sua aberração, tão preciosa e que ele olhava com tanta carinho, um orgulho quase paternal misturado com sua própria vaidade. Ele sorria – e lavava suas mãos. Criara algo que realizaria seus desejos sem que tivesse de sujar suas mãos, já lhe bastava a mancha vermelha que se espalhava, um rastro de seu ato. Vestígios de sua monstruosidade – pintara ele um Sol sorridente comendo planetas pequenos. Ah, criança, destruidora de mundos.
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Criação de expectativa: Afinal, brincar com a mente alheia é divertido.
Meu Reino por uma Resposta
Tenho vastas somas pra entregar à quem puder me dizer que sentimento é esse que me consome, que me move diante do perigo constante da rotina. Não é brincadeira mas as pessoas parecem não acreditar em mim quando afirmo oferecer uma recompensa pra quem puder me dizer… o que é isso?
Eu não sei e nem tenho como saber, minhas palavras só se estendem tão longe quanto deixa meu coração e essa sensação faz desbotar o vermelho do meu sangue – é mais do que eu aguento, é mais do que eu suporto.
Um dia eu achei ter encontrado a explicação, foi a resposta duma pessoa na rua com a qual eu esbarrei e, tão rapidamente quanto um segundo e ainda assim tão eterno como o chão que pisávamos, ele disse:
“-Saia da frente seu imbecil insignificante!”
E eu finalmente entendi o objetivo da vida e tudo mais. As pessoas são tão prestativas, a inteligência coletiva é de fato uma benção. Aposto que alguns estarão se questionando se estou no momento sendo sarcástico… a resposta, deixo à vocês pra descobrir. Afinal, aprendi que as coisas importantes na vida devem ter significado pois obviamente eu não parecia importar para o sujeito na rua.
O que isso tem haver com esse estranho sentimento que me inunda, você pergunta? Ah, tanto quanto o mar tem haver com a tartaruga. O mundo é um lugar muito estranho de se olhar quando a gente acredita que entende, porque… se sabemos explicar o mundo, saberemos nos explicar?
Eu, claramente, não sei. E sinto isso que não é nostalgia nem saudade, não é paixão nem piedade, não é maniqueísta – desconhece o bem, desconhece o mal. É como se simplesmente, fosse.
Talvez um médico venha no futuro me dizer que é um sopro no coração, que tenho algum problema cardiáco e que meus dias estão contados. Talvez. Enquanto isso prefiro eu acreditar que existe algo muito maior, algo que eu ainda não posso entender e que se os mistérios do mundo me estão claros, meus próprios mistérios ainda permanecem.
Eu me tornei meu próprio enigma a ser decifrado, numa jornada de uma vida inteira onde a resposta está sabe-se lá em que tempo e espaço. Não poderia estar mais feliz, completamente ignorante ao que será, ao que virá – a vida é uma deliciosa surpresa.
Contos do Camaleão
Primeiro Ato: O Grande Baile
Eu fitei as pessoas na festa, tudo era muito claro pra mim. Cada gesto, cada olhar… eu entedia, lia os significados contidos em cada um, como fossem frases visuais. Alguns diriam que é abuso do meu conhecimento mas quem pode culpar um homem por tentar desvendar aqueles que o cercam? As mentiras, traições e meia-verdades não eram minhas, eram dos outros. Eu era apenas tal como um figurante na vida alheia, um mero observador.
Por necessidade e por motivos da razão, conclui eu anos atrás que o melhor método de interagir com o mundo era, de fato, aceitando as máscaras sociais, as convenções impostas, agindo dentro dos conformes aos olhos alheios. Levaram-se anos de observação e eu admito, um desabrochar da intuição natural, mas eu havia me tornado a pessoa perfeita. Não havia momento social onde eu estivesse deslocado, não havia estrato nem sotaque que soubesse me derrubar. Eu era um perfeito camaleão e o meu redor era eu.
A festa era da filha dum poderoso juiz da corte brasileira, festa de casamento, veja você. Trajes suntuosos, escadarias e garçons tão bem arrumados que quase me senti num filme sobre as velhas cortes inglesas, ainda mais pelo fato do juiz vestir de fato uma peruca que me parecia um tanto quanto estranha – mas lógico, esse comentário ficava apenas em pensamento, como eu disse… ele tinha poder, de uma forma ou outra. (more…)
Humanidade Concreta
Corro na escuridão, sem medo e sem fim, corro sem saber o que vai ser de mim. Não posso parar mas o horizonte não chega, me desespero, a chuva começa a cair e começa o meu cinza a descolorir, corro mais rápido, tentando ir além do horizonte, mas parece que nada adianta e o que tento em nada resulta, mas ouço a música e consigo entender que o final se aproxima então aperto o passo, meus músculos gritam de dor e rasgam por debaixo da pele, o ritmo é frenético mas tudo se move tão devagar.
As gotas produzem canções nunca antes ouvidas, estourando lentamente, se multiplicando, criando correntes. Meu pés espalham as gotas, o chão des-desaba a minha frente, os vãos se preenchem e as lacunas não me permitem sair de minha louca corrida. O espaço vazio do horizonte se preenche de blocos e mais blocos, tento saltar para a imensidão, para o nada, mas os chão me segue, me persegue.
A música vai chegando ao fim, os acordes são os finais tais como meus sinais vitais. Sinto meu corpo fraquejar e com tudo aquilo que tenho e posso, dou meu último salto, conseguindo ir além do chão que se constrói por onde vou, caindo num abismo, num mar negro mas quando finalmente mergulho… Não há beleza igual, não há nada tão simple, não há nada tão belo.
Posso descansar em paz.

