Musa entre Homens
É difícil viajar por caminhos não construídos, buscando trilhas que ninguém nunca encontrou. Talvez seja mais fácil no mundo cartográfico pois sempre há um norte, um céu à fornecer informações de onde se está. Mas e quando começamos a passar ao reino das coisas que não podem ser vistas, apenas percebidas, quando adentramo-nos no espaço que a imaginação ocupa, como faz-se para encontra tais trilhas?
Não há um céu que possa nos instruir, o único compasso é o moral, as locações não são cartográficas, são finitas e ainda infinitas, diminutas e expansivas. A verdade é que é assustador por ser um espaço que abraça o mundo mas não pode ser visto, não pode ser expresso – pode apenas ser imaginado. Como então, novamente, encontrar tais trilhas?
Vou chegando à conclusão de que não há um método específico, que em certos momentos os elementos serão abstraídos do ambiente, atingindo a pessoa tal como a inspiração súbita dum subconsciente trabalhando atrás da cena. Noutros momentos, será resultado de trabalho, experimentação – tentativa e erro. Tentativa. Talvez a chave seja sempre essa, tentar realizar, independente de conseguir ou não. Se Thomas Edison permitiu-se falhar milhares de vezes até acertar, por que então não nos permitimos justamente, errar para acertar?
Me parece muito psicótico um mundo que espera resultados precisos em prazos obscenos – as fraquezas ocultas não permitem revelar o verdadeiro carácter, apenas talvez a falta de algum. Num espaço infestado pelo marketing pessoal, por intrigas e politicagem, a experimentação padece de atenção pois não é sempre prática, nem sempre produz resultados rentáveis. Nem sempre é, por falta de palavra melhor, sana.
A imaginação serve a pena por um crime que cometeu – o de ser tão expansiva ao ponto de abraçar qualquer idéia.
Nada é tão louco e surreal que não possa ser imaginado.
Garoto Impulsivo na Cidade Grande
Talvez eu esteja julgando a cidade cedo demais, mas minha nossa, meu primeiro impulso é dizer como é todo mundo assustado por aqui!! Repetem que “É muito cedo pra isso, melhor esperar mais um tempo”. Tempo? Relógios medem relógios então quem mede o tempo? De onde venho, as coisas não são medidas por ponteiros mas por aqui, relógios-métricos definem as possibilidades. Confesso ficar assustado com isso.
Será que ninguém percebe que em 7 dias pode ser tarde demais? Que em 7 anos pode ainda ser cedo? Quanto tempo é necessário para se conhecer alguém? Tem gente que é mais sincera em 10 segundos que outros o são em 10 anos – a espera não muda a natureza de cada um.
A profusão de números e datas deve provir de alguma tabela, tenho quase certeza – é tudo tão preciso, tão exato, tão convencional. Parece que até os impulsos eles querem controlar. Os Impulsos! Imagine só!
Talvez eu faça mais burradas e me arrisque mais do que eles, mas se tiver que olhar pra trás e ver tudo o que consegui, aprendi, vivi… é impossível dizer que não valeu a pena. Errei caminhos por impulso só para conhecer ruas que pra sempre mudaram minha trajetória.
Mas o que mais me assustou foi quando tentaram quantificar o amor e descrever seus processos. De todas as coisas, justo o amor? O amor, esse fora-da-lei que rouba corações, prende olhares, furta beijos? O que é o tempo para o amor? Quem seria capaz de dizer que é cedo e não tarde?
Justificam que é besteira, que é preciso esperar pra não errar. Desde quando fazer besteira é uma coisa ruim sem lado bom? Será que ninguém aprende fazendo besteira? Será que ninguém erra? Porque de onde venho, errar é normal. A gente erra pra acertar e não fica se jogando pra baixo quando erra. A vida é assim, paciência. Depois de um erro ou um acerto, o passo é sempre o mesmo: pra frente.
Não só mas será que todo ato fora da tabela resulta em erros? Conheço tantos erros que acontecem dentro da tabela, será que esse sistema deles funciona pra prevenir qualquer coisa? Começo a achar que não. E começo a achar que eles estão se enganando. Nós não somos uma equação matemática precisa, a minha soma não dá o seu resultado e assim é com todo mundo.
Honestamente, esse povo da cidade grande me é um tanto estranho e admito me sentir podado com seus olhares de constante reprovação, mesmo que eu não concorde com o modo como eles medem as coisas. Não é fácil ser um garoto impulsivo apaixonado com idéias na cabeça. Eles me olham como eu fosse doido e agora não quero mais compartilhar minhas idéias com eles. Ironicamente, vou deixar eles esperando.
Dois Pontos e Uma Vírgula
É difícil não olhar com certa arrogância pro mundo quando se tem como base preceitos tão claros, tão fortes, que certas opiniões e desejos alheios parecem absolutamente estúpidos. Meu primeiro ponto é que vivemos num mundo em que as pessoas querem certezas – elas ousam pedir garantias, incapazes de ver que a idéia de existir algo como uma garantia é uma ilusão em si. Se alguém quer trair, um anel não impedirá. Se alguém quer roubar, um alarme não impedirá. Se alguém quer matar, uma lei não impedirá.
Tudo se decompõe à essência de como todas as ações sociais e observáveis começam – escolhas internas, partes de um processo intrincado de julgamentos e arbítrios. Todo passo dado é uma escolha efetiva ainda que muitas vezes inconsciente – ou quase.
Chego então no meu segundo ponto; o significado da vida. Parece que é uma pergunta absolutamente impossível mas eu juro que é mais simples do que parece e, pra completar, se relaciona com o que falei sobre escolhas. A vida não é nada mais senão fazer significar. As palavras que falamos são apenas palavras, os objetos que temos apenas objetos mas… nós fazemos tudo isso obter um significado. Através da concatenação de significados, construímos algo tão maior e extraordinário, um milagre matemático de possibilidades improváveis. Através das nossas escolhas e significados, fazemos significar a vida.
Presunçoso? Sem dúvida. Mas eu não ofereço garantias de que estou certo, apenas digo que acredito estar.
Agora, José; Sorria.
É sem dúvida frustante o quão rápido o tempo se esvai quando estamos com quem gostamos. Horas se comprimem em memórias repletas de odores, sorrisos, abraços e apertões, leves e marcados, movimentos que não poderiam ser outra coisa senão afeto. E quando essas horas terminam e tudo que sobra é o solavanco do ônibus no caminho de casa, dá uma certa sensação de vazio e nos pegamos parafraseando Drummond em nossas cabeças.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
Mas, em tentando lidar com essa frustação do badalar e da abóbora, parte de mim grita respondendo. Seja como for a brevidade desses encontrões no tumulto que é a vida, cada segundo a mais é um segundo a menos, nos aproximando do final e afastando do começo – grãos de areia que percorrem um sentido só, sem nunca retornar, sem permitir um relance, uma segunda chance de aproveitá-los.
Mais do que nunca me faz sentido a palavra ‘conviver’. Ao viver com, partilhar experiências e criar memórias, estamos escolhendo ainda que de maneira inconsciente, à quem entregar parte de nossa vida – . E, no final da noite, não poderia eu estar mais feliz por quem eu escolhi e por quem me escolheu.
Feliz Ano Velho
A idéia de renovação e segunda-chances que acompanham a virada do ano são estranhas. Muda muito sem nada mudar – dia primeiro não é tão diferente do dia trinta e um. Não há, de fato, um começo nem um fim que possamos determinar. Mesmo assim, dentro dessa abstração que é o nosso calendário, o virar das folhas tem mais força do que transparece.
Esse ano eu passo querendo deixar tudo pra trás. Queria esquecer, queria fugir, queria correr pra longe, queria que fosse tudo diferente mas não dá, num posso. Se eu esconder o passado atrás de portas trancadas, guerras internas iriam se precipitar. Aceito o gosto amargo do que já foi esperando que me sirva pra quem vou ser.
Meu maior temor é que continuo a me fazer promessas na cabeça, juras de mudança para melhor. Mas e aí que, vinte e dois anos depois, as coisas continuam num ritmo de tartaruga? Se existe definição para “sem sentido”, deveria ser esse ano, com a horrível sensação de largar na corrida mas nunca sair do ponto de partida.
Talvez seja a minha busca doida por algo intangível e que me é difícil de explicar – e de compreender. O mundo me fita com suspeita e eu envergonhado abaixo a cabeça. Como explicar que o que quero é produzir o toque inexplicável e mágico que vemos em filmes como os da Disney ou os do diretor Wes Anderson? Ou então o grito calado, contando histórias de gerações, da arte de Shaun Tan? Ou ainda, o Homem Vitruviano de Da Vinci – impossível na realidade mas perfeito, tão perfeito que chega a ser grosseiro tentar mostrar porque não seria ele possível.
Talvez a vida tenha se tornado possível demais, segura demais. Nem me é mais possível se perder por São Paulo – talvez a cidade tenha ficado organizada demais ou eu confuso de menos, mas honestamente, chegamos ao ponto em que mesmo quando se erra é fácil consertar. Fazer a faculdade, já que já estou nela mesmo, indo pro terceiro ano sem nenhuma paixão no coração pelo curso. Continuar vivendo em casa, já que estou aqui mesmo, sabendo que a alma grita por um lugar meu, responsabilidades minhas. Continuar tudo que já foi começado porque é fácil, é garantido, não tem risco nenhum e as pessoas olham em aprovação, olhos semi-cerrados por causa do sorriso como estivesse tudo bem.
Não está e honestamente, minha vontade para que as coisas continuem como estão é nula. Como podem me pedir para viver num copo d’agua quando sinto que faço parte de um tsunami?
Talvez eu saia do país. É pela mudança de cenário como é pela necessidade de independência que provêm da responsabilidade. Talvez é ter que responder, no final de cada dia, à mim mesmo. Talvez seja porque não suporto mais essa cidade e porque não vejo muito futuro aqui. Talvez seja porque eu quero mais beleza e menos tristeza. Talvez… talvez seja por um desejo louco que se debate dentro do peito, pedindo para que seja feita a obra que trás o encanto, que vá além do que parece ser bom para o que de fato o é.
Ao badalar da meia noite enterro de vez meu ‘eu’ desse ano velho, que já morreu à mim tem algum tempo. Tempo o suficiente para que eu tivesse andado como um zumbi sem meta alguma, sem nada meu, preso vivendo de fachada. Basta.
Por favor, chega.
Adeus ano velho.
Auguri
Eu não quero desejar nada à ninguém meramente por educação, não, não. Se desejo é porque é sincero, é o que quero aos outros – e a mim. Não sou altruísta ao ponto de ser tão desligado de não falar em voz alta que quero algo bom para os outros sem pensar que quero também pra mim mas, não deixe que a realidade da situação desligue qualquer significado que eu possa estar querendo aqui, por esse parco texto transmitir.
A verdade é que eu desejo a felicidade à vocês nesse dia de hoje, pois bons são os dias comemoráveis e memoráveis. Tem jeito melhor de fazer um passado do que construindo boas memórias? Então não deixe que o almoço de família esquisito ou a ceia ansiosa precipitem a infelicidade. Dê um passo pra trás e olhe com um sorriso por saber que isso tudo vai passar e, com todas as falhas e desarranjos, esses momentos são únicos. Parentes bêbados, conflitos e atritos familiares, expectativas surreais… nada disso deveria definir o dia. O que define o dia é aquilo que você consegue extrair dessa confusão que é criada.
Porque, sejamos honestos, confusão é praticamente sinônimo de festividade. Trânsito, lugares abarrotados, gente estranha, festas esquisitas. Por que não, então, aceitar que as coisas são um teco menos precisas, um teco mais caóticas? Minha sugestão e meu desejo à todos: a felicidade, não só no dia de hoje mas na maior parte dos dias que houverem e tratemos as coisas com a mente um pouco mais aberta.
Afinal, ano que vem, tem mais.
Dias de Verão
Por vezes nós nos deparamos com muros em nossos caminhos de pessoas e momentos que acabam marcando-nos como inesquecíveis, ainda mais em contraste a maior parte dos dias, que pouco significa – isso se chegar a causar algum impacto na vida. Mas em tanto lembrar, nós nos esquecemos que são superáveis.
A verdade me é que os dias passam e gradualmente, você também. As lembranças ficam guardadas em caixas numeradas, compondo a linha do tempo em que coexistimos. Mas tal como as estações devem deixar aquele ano específico pra nunca mais voltar, nossos caminhos se separam e termina o nosso calendário.
É assim que vivemos; riscando um dia por vez, uma página por mês, uma estação por ano, sabendo que ali, naquele espaço de tempo tão relativo, vivemos uma vida inteira – umas mais curtas, outras mais longas. Naqueles centímetros de papel na parede marcamos em nossa mente mundos inteiros que não mais habitamos.
Somos humanos, somos falíveis. Precisamos viver um dia por vez pois nós queremos amar ainda que não o saibamos fazer. Queremos mudar ainda que quase estáticos. Queremos sonhar ainda que receosos. Queremos poder olhar pro céu e sentir que fazemos parte desse mundo que anda se achando tão globalizado e ainda assim desconexo. Mas, como comecei esse parágrafo, acima de tudo queremos amar – e ser amados.
A chave de nossas memórias ainda me parecem ser as palavras, umas mais honestas outras mais abrasivas mas ainda assim, uma voz que diz algo. Se você tem algo a dizer, diga, não espere que os seus dias sejam riscados e você e eu tenhamos passado. Quem sabe essas linhas te inspiram a falar as coisas com sua própria voz. Pois a minha, escondida nessas linhas, assim o é muito silenciosa.
Sempre há um ano novo.
O Pintor de Paralelepípedos
Desde pequeno eu nunca entendi bem a idéia de dedicação – não que eu não soubesse o que significava mas eu de fato não me aplicava com a essência do que define a palavra. Minha mãe dizia pra eu me aplicar nos estudos, pro vestibular, pras provas… mas eu empurrava com a barriga, gerenciava o tempo, estudava muito pouco. Eu não via necessidade nem tinha vontade.
E os anos passam e a gente cresce. Algumas coisas mudam e outras tantas, permanecem quase como manifestações biológicas, como fossemos indivisíveis de certas manias. É como se eu tivesse nascido sem conseguir me dedicar.
Sei que as regras da sociedade exigem que seja dado tempo às coisas para que se formule frases com uma certa certeza. Eu bem poderia dizer “Decidi que vou construir um iate” mas a idéia pareceria tão absurda que muitos só acreditariam se eu de fato o fizesse. Pois bem. Hoje eu finalmente consegui enxergar em mim mesmo a elusiva dedicação, aquele segmento que impele ao ato, que sabe que realizando um bom trabalho a gente termina com uma sensação de um dia bem aproveitado.
Dois dias estudando e sinto isso. Será que vou continuar assim? Não tenho como dizer ao certo mas tem uma vozinha dentro de mim gritando “PODE APOSTAR!”. Começa a fazer sentido a metáfora da luz se acendendo sobre a cabeça do homem, dando-lhe idéias, respostas, soluções – pois alguma luz em mim se acendeu e estou vendo um caminho adiante, cheio de dificuldades mas criado com o melhor princípio que posso imaginar: o Amor.
Hoje eu sonhei acordado, não com um futuro impossível mas com o presente, esse presente que faz jús ao nome e, como uma boa história, garante ter tido um começo e promete-me um bom fim.
Quadrados Imprevisíveis
É uma coisa engraçada planejar o futuro – é tentar prever a cadeia de consequências dos nossos atos. São atos que dependem de atos que por sua vez dependem de outros atos! É nessas horas que eu bem que gostaria de saber jogar xadrez melhor. Se bem que, até mesmo os melhores jogadores de xadrez acabam presas da impossibilidade de prever todas as jogadas, seja contra um Deep Blue da vida ou do governo russo, pobre Kasparov.
Como então que eu, um mero mortal que parou no nível “xadrez para iniciantes” tem alguma chance de fazer a escolha certa? Acho que a resposta é complicada e simples, mais uma das muitas dicotomias da vida. Cada um tem um tabuleiro diferente, peças que se comportam de modo único e, às vezes, centenas de cores que disputam pela coroa ao mesmo tempo. Branco e Preto? Só no xadrez, na vida temos uma gama de cinzas tão grande que cada movimento de um peão cria ondas de causar inveja nos maiores lepdópteros teóricos.
Talvez seja presunçoso da minha parte assumir que sei algo sobre responder as questões que surgem nos corredores da vida mas eu acredito, com toda a honestidade que há no coração, que a resposta é tão importante, quanto permanecer fiel à ela. É saltar com os dois pés juntos, independente do tipo de terreno – às vezes a gente pula sabendo que pode afundar mas quem seria capaz de dizer se não vale (ou valeu) à pena?
É realmente como num jogo de xadrez; movemos as peças e precisamos aceitar que não há volta, que aquele movimento é final e é absolutamente inútil ponderar sobre ele após retirarmos a mão da peça. Mesmo sabendo disso, com carinho e ponderação deixamos a peça em seu lugar, fitamos a vida e dizemos “Sua vez”.
Dito Cujo
Existem tantas metáforas pra definir a vida e o mundo que tem vezes que é até difícil escapar do lugar comum. As palavras que deveriam nos iluminar dividem-se em barras e cerceam nossa liberdade – é o ciclo do paradigma, do modelo pronto e enlatado, dum ditado que diz o que é certo e quem está errado.
As pessoas olham feio para aqueles que se desviam do padrão pré-estabelecido. Eu entendo, porque até há um certo sentido mas, parece que perde-se de vista o motivo do nascimento de tantos ditos, neologismos e crianças da língua: aquilo que não existe e o mundo não fornece, nós fazemos. Não é essa a essência da criatividade? Ou ainda, o que nos define como homens? Formular as respostas antes mesmo de ter as perguntas, é essa sábia prontidão que consegue enxergar, com a soma dos saberes, mais longe que qualquer um de nós.
Não é a visão que define o gênio? Se tivermos o desejo, usando-se dessa sabedoria coletiva, podemos tentar intuir um tanto dessa visão geral – e ai é de cada um perceber as coisas mas, acredito eu, a soma dos valores permite ver muito mais longe do que sugerem os modos da sociedade. Cortejar idéias diferentes não implica aceitá-las e só reafirma valores próprios pois, como diziam o linguísta Saussure, as coisas só existem por oposição. Quer ter uma opinião firme? Escute uma diferente.
O que há num nome?
Não é apenas um modo para chamar as coisas nem sons produzidos sem nenhum sentido – é mais que tudo isso. É através dos nomes que vemos o mundo, construímos nossa realidade. É chamando as coisas pelos nomes certos que alcançamos algum semblante da verdade que se esconde nas narrativas que ajudamos a compor.
O mundo não nos dá o significado, é preciso ir atrás, buscar as respostas – mesmo que isso nos leve por passagens desagradáveis com encontrões com figuras caricatas que bem nos lembram monstros de nossas infâncias. Sempre haverão aqueles antagonistas dispostos a distorcer a palavra até que ela se conforme num espaço que não permitiria humano nenhum viver com dignidade. É preciso que estejamos atentos para não perder de vista o significado – sem significado, aí sim um nome torna-se apenas… um som diluído no nada.
Hoje eu reparei como havia perdido meu caminho de vista, talvez focado demais em idéias antigas que me cresceram ranzinzas, sussurando nos meus ouvidos palavras que queriam me acomodar mas só me faziam desesperar. O ápice do meu pânico foi olhar minha parede e ver, ou melhor, não ver, que eu não havia colocado nela nenhuma das promessas que me fiz nem dos sonhos que tomei como sendo certos – semblantes de verdade.
Meu coração está pesado, dolorido – triste até. É um misto de emoções muito grande agora que finalmente me toquei que eu vivia até então olhando para espelhos esperando ver o mundo, mas, obviamente, só via um reflexo meu, só via ali para colher o que eu achava em mim ter plantado. É hora de quebrar o espelho, é hora de subir ao topo do mundo e gritar. É hora de pintar um nome na parede e, talvez pela primeira vez na vida, dizer algo de verdade.
Geometria Social: Um Ensaio
A normalidade dita as regras das relações humanas – e nós obedecemos, em sua maior parte. É como enxergar o mundo com linhas invisíveis que unem, separam, dividem e se conectam. Formamos figuras geométricas vivas, cada qual com seus pontos e suas faces ocultas. Seria fácil talvez se a adesão fosse completa mas eu creio que isso seja, ainda que não impossível, improvável. Somos diversos demais pra tal exatidão.
Porque eu sei que muito me divirto em situações que são ‘erradas’, aqueles momentos sociais constrangedores me fazem rir, me fazem pensar. Nessa hora a gente vê como as linhas são frágeis e, se quisermos, o paradigma está ai para ser mudado. É simples, basta dizer algo fora de lugar e sem cabimento.
Hoje mesmo houve uma situação embaraçosa com olhares confusos, gestos ambíguos e impulsos contidos. Ninguém quer essas situações mas tem vezes que acho que… Que eu respiro esse ar, vivo esse mundo e me espalho, arraizando meu juízo no âmago das contradições humanas, sorvendo a seiva doce ainda que bruta das relações que fracassaram. É como rir da desgraça ou chorar da comédia – atípico sem dúvida mas alguém poderia dizer que é menos verdadeiro?
Eu aceito que as coisas sejam como são, sem julgá-las erradas nem ponderar como raios poderiam ser. De que adianta derreter-se por quem carrega um anel na mão ou insistir em convencer quem já está convencido? Tentar estabelecer qualquer ordem ou sentido parece fútil quando a natureza é, em sua essência, caótica. É esse caos, esse… ‘acaso’ que poucos parecem entender. Enquanto uns proliferam no padrão, outros cortejam a loucura para atingir a sanidade.
Se a gente se mantêm dentro das linhas sociais, esperar por novidade é como ouvir uma música em ‘loop’ e esperar mudanças – é absolutamente louco pois ciclos são, como é estupidamente óbvio, cíclicos. Não há mudança no que se repete mas, experimente só tentar dar um passo a mais, um gesto a menos, uma palavra fora de lugar. A desordem criada que todos correm para arrumar gera tanta vida.
É que nem aquele momento recente – ela me olhou como querendo dizer algo, mostrou-se como querendo meu olhar, segurou meu braço levemente como não quisesse que eu fosse. Mas lógico, isso sou apenas eu no meu mar de caos olhando para um mundo ordenado – um mundo que não consegue se admitir como qualquer outra coisa.
Tem vezes que eu me pergunto se existem outros como eu – e se eles por acaso estariam presos em instuições para loucos alucinados e estridentes.

