Ele Sobreviveu
Sombras da noite
em posse de mim.
Maquinário de carne
movendo-se distante.
Sem palavras e
sem sentidos,
impensável e putrido.
Cercado de carcaças,
perto o suficiente para eu sentir
o que logo me aguarda. Ponho-me a rir:
o rumor diz que fugi.
Conforto Oco
É difícil viver só
Em um mundo de dois.
Nos confis da Terra
o chão partia
E nós continuávamos.
Cada segundo aumentava o abismo,
o tempo meu antigo aliado
agora meu maior inimigo.
Me pego assim, segurando os opostos
para o mundo não terminar.
Em minha recusa de soltar,
Temo um dia eu saber dizer como é
ser esquartejado por amor.
E nesse momento, nesse segundo,
em que decido se solto ou seguro,
eu penso…
Fossem meus braços mais fortes
e mais longos, talvez pudesse segurar
para sempre.
Fosse minha mente apta o bastante,
talvez eu pudesse te dizer as palavras que te fariam ficar
para sempre.
Fossem meus olhos melhores,
talvez eu pudesse enxergar a resposta para estarmos
para sempre.
Mãos sujas que se lavam,
soluços à quem não tem
solução.
Nenhuma História
Um corpo em queda,
braços esticados,
um suplício.
Tão perto.
À uma mente fechada,
um coração foi aberto.
O sangue escorrido ao chão
sujando os joelhos
dos caídos.
Eu tentei gritar seu nome
mas o silêncio me engoliu.
Todas as promessas
- quebradas.
Piromania
Olhares casados,
casais cansados.
Sinestesias mesclando;
passado, futuro,
presente
-pessoas como a
gente.
No escuro pensando
como quase tudo foi,
quão perto tudo chegou
-por um triz.
Da tristeza teceu
de retalhos uma trama
que pudesse te esconder,
como não pudesse
seu par te ver.
Não levantarei tal véu:
Irei com fogo expungí-lo.
Estar comigo é estar à luz
-sempre.
Para sempre.
É inútil esconder
o que eu já vi.
É impossível esquecer
o que eu não sei.
Com cautela
é hora de escolher
que memórias formar.
Os Melhores Anos de Nossas Vidas
Tento me segurar
na ponta de inspiração
que sinto surgir.
Como homem no abismo,
suplico ao meu corpo
por mais força.
Tudo uma tentativa de me puxar
para longe da escuridão.
Longe daquele que já
fui.
As memórias em sépia
tingidas, feitas, esquecidas.
Vazão para a imaginação
do que não foi exatamente.
Lembramos diferente.
E agora os dias nublados
bem nos parecem
ter sido dourados.
Nossa vida era uma folha de outono,
estilhaçada e sem volta,
dando lugar
à algo novo.
Tarde Demais
Perdi meu compasso,
passo, abraço.
Rimas lentas sibilantes
pois não sei mais
o que escrever.
Como decidir se tudo
soa à minha voz interna
como válido e bom?
É fechar os olhos e se imaginar
caindo num sem fim,
despencando eternamente em direção
à um mar tão negro
que luz nenhuma poderia ali existir.
E nesse não haver, nesse vazio,
solitário, expansivo…
infinito.
O espírito amansa.
Como posso achar paz no pensamento
de um suicida imaginário?
Um corpo que habito sem ser
-um veículo ao vento.
Tudo preto e branco.
Braços abertos encarando o abismo.
Solto-me.
Sem grilhões.
Silêncio absoluto.
Tempo eterno.
Uma queda sem fim,
Uma vida muito breve.
À Corda Bamba
A música alta é para afogar
as palavras que ardem
na escuridão das
entranhas.
Os medos comuns:
multiplicados.
A lembrança cede
à fantasia.
Nunca sabendo se foi
bom tal como lembro.
Traído por minhas memórias
de um dia em que estive
com você.
Eu me pergunto se você vai
mais uma vez me olhar
como houvessem
borboletas à riscar
as asas nas paredes
do teu corpo.
Tal como antes.
Para sempre e de novo.
Problemas sem Nome
Eu assisti a legião de anjos descer
por pedestais e escadarias
de mármore
branco.
Em passos que não tocavam o chão,
como fossem força implacável,
levaram-me.
Um outro lugar.
Pudesse eu em palavras explicar,
fosse possível imagens formar…
Eu te contaria. Tudo.
Segredos tão íntimos
que eu mesmo
não poderia saber
até tê-los revelado.
Fotografias desfocadas
de uma câmera humana
de lente torta e rachada.
Super exposto.
Vou flutuar invisível.
Aos olhos alheios,
a-
fundo.
Boas Palavras
Meus queridos amigos,
partiram para não voltar.
Um futuro sem ninguém,
cheio de gente.
Notícias distantes em jornais próximos,
catástrofes tão além
que bem podiam ser
mera ficção.
Vidas humanas transformadas
em tipografia em papel barato -
notícia do mês passado.
É flertar com abismos,
encarar poços sem fim
de gente sem começo
nem meio.
Se você não tem
palavras boas para dizer
melhor seria se calar.
Já bastam todos os urubus
ao abismo encarar.
O céu está lindo,
onde quer que ele esteja.
Venha como estiver
Nunca deixei ninguém me conhecer
Tão bem como
você.
Eu, um ser truncado,
de problemas e manias,
soluções e terapias.
Rimas, às vezes.
O que fazer se não existe
ninguém como você:
te espero me aceitar
como sempre te aceitei.
Mas a verdade é que enquanto isso
Todo dia recomeça,
eu sem saber se sou feliz.
Esse sou eu, problemas,
pronomes, tiques,
eu.
Venha como você é,
Aceite-me como sou.
Enquanto Dormíamos
Sei bem que o passado
não irá descansar
enquanto não for
deixado para trás.
As noites estão longas
e seus espaços preenchidos
por sombras do que
ali não está.
Todos os meus velhos amigos
não me reconhecem.
Todos os meu velhos olhares
não mais me enxergam.
Perturbo a noite
com as ondas que faço
na queda ao esquecimento.
A luz da Lua míngua
e ninguém mais me conhece.
Silêncio, de quem foi alcançado
pelo que poderia jurar ter
sido o passado.
Quis-se Pensar
Eu tento não pensar
em qual longe
o Sol está.
Eu tento não pensar
em quão perto
o horror está.
Eu tento não pensar
em como o meu horizonte
é outro lugar.
Eu tento não pensar
em como eu só existo
em horizonte alheio.
Mas por mais que eu me esforce,
que eu pense que não quero pensar,
a chuva desaba e me parte,
rompe minhas defesas
e então, chovo eu.
Eu tento não pensar
quanta sorte eu tenho
pela chuva que acalma
o que um dia chamei de alma.

