Roubada Cultural
Os lugares estão vazios
mas a lembrança permanece e
suspiro,
a dor não me esquece.
Memórias que criamos
de onde visitamos
me assombram no presente -
queria que o casal se beijando
fosse a gente.
E aqui estou eu, segurando essa torrente de sentimentos,
Uma represa de memórias de momentos.
Como eu queria poder te abraçar
e assim o tempo passar.
Fobia do Sono
A mente em pânico não aceita ir dormir,
Medo do tempo passar, do que está por vir.
Medo de acordar amanhã tal como me deitei,
Medo de nunca acertar o que errei.
Atravessando Pontes
Eu desci a colina até me perder
na neblina, de sua alma, de nossa sina.
Me achei idiota por me surpreender
ao ver que quem você queria
eu nunca poderia ser.
É difícil querer ficar
quando todos parecem dormir
É difícil de te amar
sem poder no mundo intervir.
Me senti morrer à sombra do seu ser.
E no silêncio, tudo ficou tão claro
e só então entendi que por esse sonho,
paguei tão, tão caro.
Andando sobre Água
A batida é simples e me lembra outra canção -
Aquela que escuto quando ouço seu coração.
A ideia de você me inunda a alma
E eu tento manter a calma
Pois a saudade aperta e comprime,
A verdade é que até me deprime.
Enquanto isso, todos falam pra ir devagar
Mas não é questão de pressa
é só questão de amar.
E fico assim, piegas sem fim,
Recitando em plenos pulmões
sobre a ilha em que habitam
dois corações.
Nossas Palavras no Muro
As palavras falam duma varanda num verão;
de pessoas que cresceram juntas
e nasceram separadas.
As palavras falam do amor e sua vazão;
de pessoas que amaram juntas
e nasceram separadas.
As palavras falam de memórias ao mundo entregues;
de pessoas que morreram juntas
e nasceram separadas.
E em não viver só, não amar só, não morrer só,
as palavras falam de tudo que as pessoas sonham juntas
- ainda que nascem separadas.
Ambivalência
Eu não conheço ninguém
que possa nem ninguém
que saiba nem ninguém
como você.
Eu não sei se a conta está certa,
Não sei se é gráfico de curva
ou de reta.
Tenho pouco e tanto a oferecer,
pouco a mostrar mas muito a querer.
Me sinto tão à parte
Que faço parte.
Vale das Sombras
A rua se prolongava sem fim,
Um pedaço do monstro – um pedaço de mim.
A falta de luz muito lhe ajudava a ver
que sem luz, qualquer coisa poderia
ele
ser.
Os gritos abafavam os passos,
O monstro apagava os traços -
a doença no seu sorriso,
o choro tornando o chão molhado e então,
liso.
Escorrei na catástrofe e me deparei
com os corpos de quem
matei.
Cria de Rua
Amaldiçoei as sombras que se projetavam
e consigo – chorei – pelos sonhos
que elas arrastavam.
Do ventre cinza nasceu
plastificado na revista
quem nunca pertenceu.
Nas selas que me fizeram ver
Vivo a vida ao galope de cavalo,
sumido no segundo do embalo.
Sem padrão de movimento,
Sem padrão de momento.
Se o rei está em xeque
foi o movimento da rainha.
Se faz calor e abanam o leque
é culpa da estrela vizinha.
Rima de final de semana
feita a esmo, feita na cama,
feita de estômago vazio e coração cheio,
feita por amor e nunca por receio.
Então eu até me deixo quebrar a forma,
dar jeito ao que não se conforma,
Porque essas idéias vão todas sair
E preciso ver pra onde vão ir.
Eu em Você
A essa hora alguém está entrando num trem
E a onda que se foi é a onda que vem.
Ciclos de vapor que nunca vão voltar
Que não podemos mais fotografar.
Vejo dentro de você um tanto de mim
e vejo, nesse mundo longo sem fim
um tanto de você em todos,
nos traços nos rostos.
Deixa Estar
O problema do amor é que,
tanto quanto mais forte se amar,
mais fácil é de se magoar.
Eu ajo como tivesse o mundo desvendado
mas a verdade é que muito eu não sei
e se não erro é porque já errei.
Tem horas que é difícil entender
Que quem foi não é quem vai ser,
Mas não somos nossos pais nem
eles os pais deles.
Se peco é por querer sempre estar do seu lado;
na doença e na amargura, no amor
que acho que cura.
Mas preciso que você me deixe entrar
Na sua vida, no seu lar,
Pois sendo alpinista irreverente
prefiro entrar pela porta da frente.
Cris
É assustador pensar
que em nada mais penso
- e em nada mais quero pensar.
Aprendi a te imaginar e agora,
viciado em você,
Não consigo parar.
Acordar sem beijo,
Andar sem companhia,
Dormir sem alegria.
Sem você, é esse meu dia à dia.
Talvez eu esteja quebrado,
um di-di-disco riscado
Mas caramba…
Quero viver do seu lado.
Pois ainda que o amor seja assustador,
Muito mais me assusta
o quanto a sua ausência
ao coração me custa.

