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Corda Bamba

O último volume é pra afogar
em um mar de ruído
meus pobres pensamentos.

Uma tentativa besta de fazer o tempo passar
sem prestar atenção no abismo sob meus pés.

Talvez eu seja um idiota
por colocar-me na corda bamba
das suas palavras.

Sei que se as sílabas pararem de fluir,
vou descer, vou rimar, vou cair.

Talvez eu seja um louco
Mas afeto é bom
e o seu é melhor.


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Desviado

As imagens passavam velozes -
a locomotiva da minha vida
desprendida da realidade
chocar-se ia.

E me chamam pelo meu nome
mas não sei responder
e todo mundo diz que tudo
vai ficar bem.

Em casa durmo em um quarto estranho
que um dia já foi meu.
Ser página em branco cercada por caractéres
que nada mais me dizem.
Tudo está mudo.
Todos.

Os vizinhos dizem que não é tão ruim,
Minha tia diz que vai rezar,
Meus amigos tentam lembrar à mim,
Mas minha mãe não pára de chorar.

Vejo em minha mente os trilhos acabando,
o trem vira, vira, vira, virando.

E me chamam pelo meu nome
que não sei responder,
e todo mundo diz que tudo
vai ficar bem
e está só
na minha
cabeça.

E só consigo pensar
descarrilar
descarrilar
descarrilar
descarrilar


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Paulista

Muda o farol, estoura a multidão,
Solas de sapatos raspando no chão,
Corre-corre, grita-chama, taxi-vai.

Manadas contentes com sua tristeza,
Massa amorfa de pernas e sobras,
mar de gente, tanta gente.
Todos sós.

Vivendo em centros urbanos de desespero,
aglomerações de sonhos embutidos
e desejos enlatados.

Repetem sua miséria nos cliques da tevê,
muda, muda, muda, muda, nada muda.

Dia após dia em labuta ingrata,
escravos achando-se livres,
massacrados, oprimidos,
esmagados, atrofiados,
enclausurados.

Quem dera com outras palavras
essa população poder descrever
- mas não dá.


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Minha vida sem mim

Ser quem sou, de certo uns hão de se identificar,
é ter vontade de fugir de tudo,
de sair correndo e transicionar,
como fosse a vida um montage,
do pior ao melhor, do “estar preso” ao “ser livre”.

Correr como as pernas não pudessem se cansar,
mudar como não houvesse limite.
Sonhar com o Sol quando se vive nas sombras.
Ser outro que não eu.


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Valquíria

Ela olhava o mar, esperando.
Tinham-na por coitada,
desamparada, perdida.

Mas tal como ela,
olhava ele o horizonte.

Haveria de encurtar a distância,
haveria da linha do mar romper
num choro de uma angústia engarrafada
de um amor que muito podia.

Mas o dia não veio,
ele nunca chegou.

Ela sabia, sempre soube. Com lágrimas nos olhos
e loucura na cabeça,
em pobre barco à remo
partiu.

Ele afundou com seus sonhos e vasto tesouro
das mais preciosas lembranças
-riquezas que reino nenhum teria,
artefatos únicos de almas interligadas.

Naquele breve segundo que antecedia sua partida
por dentre os feixes de luz que n’água penetravam
jurou vê-la outra vez.

Seus braços se tocaram,
olhou seu próprio corpo se afastar,
afundando à eterna escuridão,
sentiu-se ascender
em suas mãos.

“Eu te amo”
ele sussurrou, leve.
Ela apenas sorriu e beijou-lhe a testa,
Gentilmente agitando suas asas.

Para longe do mar,
sempre além do abismo.


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É mais que ser.

Não é medo de se comprometer,
nem medo de se perder
- é só medo de uma vida vazia,
sem sentido,
sem sentir,
sem ter tido.

É amar o desconhecido,
despencar de aviões e admirar
gigantes brancos cortando
o céu azul.

É querer apreciar
cada momento por apenas
momentos ter.

É olhar pela janela do carro
e nas listras do chão
ver abstrato mundo novo.

É deixar-se confundir,
imaginar-se em outro lugar,
em outra era.

É fingir que todos falam outra língua,
é fingir-se estrangeiro,
fingir-se outro.

É ser-se desconhecido,
ser-se novo.

É fugir de uma vida sem amor,
sem calor, sem frio.

É em cada segundo
nascer, viver, morrer,
hora à hora,
dia à dia.


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Acolheimo-nos

Em aceitar o que somos
quem sabe encontremos
um pedaço de paz.

É ser de palavras feitor,
significando letra à letra
aquilo que de fato
queremos dizer.

Arte, meu amor,
para enaltecer a alma.

Dores incomparáveis,
amores impossíveis,
vidas, mortes e outros fins.
Nosso reino.

Arte, meu amor,
para traduzir o mundo.

É como houvesse na ponta da língua,
invisível semente
para cultivar
a cabeça d’outros.

Ideias, ideais,
gotas de chuva.

Em nossa labuta garantia não há
e pessoas alheias se assustam.
“Louco”, ouço-as pensar.
Mas são pessoas comuns.
Pensamentos ordinários.

Garantia quem dá é a morte,
amiga de todos, final de toda sorte.
Corte nas rimas do punho que escreve.

Papéis certificados a morte não são
-mas bem poderiam ser se nos
aprisionam.

O pior male é o trabalho ingrato
e sem paixão. O pior vício é repetí-lo,
mecanicamente. O pior costume é aceitá-lo.
Como fosse saudável. Normal.

Dê-me seus olhares apaixonados,
seus sonhos e encantos
e prometo lhe tecer
um manto de se invejar.
Coisa que nenhum mal trabalho
poderia compor.

Em boas palavras te envolver,
com boa palavras te libertar.
Para ser o que será.
Se graduar de vida.

Arte, meu amor,
é certificado de caráter.


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Tanto mais que a matemática

Você mostrou-me à luz,
puxou me pelos braços
mostrando o que acontece
do outro lado – ao seu lado.

E agora que aprendi a caminhar
posso também te libertar e
nossos puxões se transformam
nessa alegra valsa que fazemos.

E, se o cansaço bater, tudo bem.
Deitemos na grama – o céu estará esperando o nosso olhar.
E o infinito parecerá tão pequeno em comparação.


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Como Eu

As luzes da cidade há muito se apagaram,
dentre as sombras busco encontrar
monstro como eu que
corresponda
meu olhar.

A escorja se reúne à distância
- todos querem praticar o mal.
Palavras escapam por gargantas cortadas.

À escuridão, sou indivisível.
Eu, criatura desarticulada,
Deformada, muda,
devoro-os.

Apaziguo minha ira consumindo
a ira alheia. E assim caminho,
preso entre dois mundos
sem à nenhum pertencer.

À luz do Sol que há de chegar
de mim etéreo fará.
Não importa minha vontade,
meu desejo de pertencer.

Minha única esperança é achar
noutro monstro meu olhar.
Enquanto isso mastigo, devoro,
cuspo carcaças.
Ossos do ofício.


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Eu Robô

É um eterno indigesto
de certas incertezas.
É o receio que reluz
nas margens das palavras.

Sons doces de sabor azedo,
diz-se sem dizer-se.

E como lâminas cortando a pele,
despindo ao pé o couro,
tudo o que sobra
é uma maquinação.

Uma estrutura fria
de engrenagens e vapor.
Move-se como um truque,
tentando a todos enganar
como fosse gente.


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Riff

Fitou o anel fora de sua mão,
calejado de amor,
sem saber mais se entregar
proferiu em sua mente palavras de ordem,
ordem de fim.

Removeu seus óculos
pois via de olhos fechados.
Em silêncio, sentado,
deixou-se levar.

Como seria diferente fossemos nós
outros, não a gente.
Seriam as palavras mais gentis?
A dor menor?

D’onde antes com cuidado
estávamos à caminhar, seus sonhos
estilhaçaram.

Desculpas para justificar
o amor menor,
a cobrança maior,
um viver pior.

Peça-me o mundo e será seu.
Peça meu coração e removerei com esmero,
de faca em punho. Mas não me peça
meus sonhos.

Essa é uma parte de mim
que não me disponho
à ninguém entregar.


next page next page close Olhamos aos céus pedindo chuva. Mas ela não se faz, cabe à nós fazer chover.”
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