Venha como estiver
Nunca deixei ninguém me conhecer
Tão bem como
você.
Eu, um ser truncado,
de problemas e manias,
soluções e terapias.
Rimas, às vezes.
O que fazer se não existe
ninguém como você:
te espero me aceitar
como sempre te aceitei.
Mas a verdade é que enquanto isso
Todo dia recomeça,
eu sem saber se sou feliz.
Esse sou eu, problemas,
pronomes, tiques,
eu.
Venha como você é,
Aceite-me como sou.
Enquanto Dormíamos
Sei bem que o passado
não irá descansar
enquanto não for
deixado para trás.
As noites estão longas
e seus espaços preenchidos
por sombras do que
ali não está.
Todos os meus velhos amigos
não me reconhecem.
Todos os meu velhos olhares
não mais me enxergam.
Perturbo a noite
com as ondas que faço
na queda ao esquecimento.
A luz da Lua míngua
e ninguém mais me conhece.
Silêncio, de quem foi alcançado
pelo que poderia jurar ter
sido o passado.
Quis-se Pensar
Eu tento não pensar
em qual longe
o Sol está.
Eu tento não pensar
em quão perto
o horror está.
Eu tento não pensar
em como o meu horizonte
é outro lugar.
Eu tento não pensar
em como eu só existo
em horizonte alheio.
Mas por mais que eu me esforce,
que eu pense que não quero pensar,
a chuva desaba e me parte,
rompe minhas defesas
e então, chovo eu.
Eu tento não pensar
quanta sorte eu tenho
pela chuva que acalma
o que um dia chamei de alma.
Sinônimo
Como um disco de vinil
tocam-se os dias.
Ciclos perpétuos
de gente finita.
Talvez a mesmice te mate.
Mas eu vejo como uma chance
de escolher algo
novo.
Ligar-se.
Religar-se.
Humano e sagrado
Sem ser divino.
Uma chance para mudar.
Tornar-se novo,
de novo.
Querer se
surpreender.
Palavras em negrito
adornando tijolos
que nos sustentam.
Nossas pequenas
cidades de sinapses.
Como um disco de vinil
tocam-se os dias.
Ciclos perpétuos
de gente finita.
Na Tua Pele
A chuva mansa mima a terra,
carícias no escuro.
Assisto, escuto, espero.
Sonhando.
Com o que existe do lado de lá,
se chove ali como cá.
Sonhando,
que existe.
Rezando.
Pra te encontrar
como a água encontra
grama para deitar.
Sonhando,
ser possível.
Que o que é tão simples
não seja complicado.
Querendo ficar eu
encharcado.
Sonhando,
com chuva.
Amor.
Eternamente Breves
Existe beleza
nos
desencontros.
Atrasos de minutos, momentos, dias…
vidas.
Uma trilha à um final ímpar,
de um princípio que aquilo não podia
supor.
É nas infinitas combinações
de pessoas e momentos
que faz-se à vida.
Instantes de ordem,
invisíveis, intocáveis.
Eternamente breves.
Tal como eles,
nós outros.
Como foi bom te encontrar.
Éramos nós ciganos também
Aplausos no ritmo da música
-para uma roda formar
Aplausos à luz do fogo
-mulheres à frente
Aplausos e sanfonas
-homens àtrás
Aplausos na noite
-para que possam bailar.
Sentei-me para escrever a história de minha vida, terminei sem palavras.”
Desbravar
Admito que chorei
lágrimas sem nem ter partido.
Me assusta ter tudo novo…
- e tudo velho.
Que diferença faz
sejam noventa ou
dez mil quilômetros?
É tão além do horizonte,
é tão fora do dia-a-dia
que bem poderia ser
outra vida.
Nisso encontro conforto
Pois sei que o diferente
Não é diferente assim
- é melhor, espero. É longe
sem ser outro lugar.
Mas é.
Agora calmo recoleto pensamentos,
se a escrita me apazigua agora
é você que me acalma na manhã,
na certeza que encontro de
nossas vidas entrelaçadas.
Era um casal que voltava com a idéia de partir; outra cultura.”
Calabouço Literário
Muito do que escrevi foi para me proteger daquilo que, sabia eu, me machucaria. Escrevi muros que se voltaram contra mim, em tanto tentar impedir o mundo de entrar, não posso mais sair. A ironia maior é que isso me parte o coração.
Hoje habito esse labirinto de versos, preso nas entrelinhas dos sons que nunca houveram, das palavras que nunca foram. Eu poderia supor como tudo poderia ser, poderia imaginar um mundo em que eu houvesse parado de escrever canções de amor que me apaziguassem e tivesse, de fato, aceitado o amor que há – não o que poderia ser. Minha verdade?
Nunca amei ninguém por completo.
Isso soa ainda pior agora que escrevo da masmorra dos meus pensamentos.
Tornou-se minha sina ter o coração partido não por um amor perdido – mas pelo amor que nunca houve.
Escrevi muros
que acabaram por me cercar,
em tentar barrar o mundo
prendi-me, perdi-me
em um labirinto de versos,
divagando nas entrelinhas
A ironia é que tudo isso
me parte o coração.
Comecei a noite tentando organizar meu dia, sem sucesso - a vida se nega a caber em uma agenda.”

