Dormiam na mesma cama mas viviam em mundos diferentes.”
As dúvidas se alongaram e nas sombras tudo era loucura. O carteiro havia se tornado um oráculo - ia ele dizer-te teu futuro.”
Boas Palavras
Meus queridos amigos,
partiram para não voltar.
Um futuro sem ninguém,
cheio de gente.
Notícias distantes em jornais próximos,
catástrofes tão além
que bem podiam ser
mera ficção.
Vidas humanas transformadas
em tipografia em papel barato -
notícia do mês passado.
É flertar com abismos,
encarar poços sem fim
de gente sem começo
nem meio.
Se você não tem
palavras boas para dizer
melhor seria se calar.
Já bastam todos os urubus
ao abismo encarar.
O céu está lindo,
onde quer que ele esteja.
Venha como estiver
Nunca deixei ninguém me conhecer
Tão bem como
você.
Eu, um ser truncado,
de problemas e manias,
soluções e terapias.
Rimas, às vezes.
O que fazer se não existe
ninguém como você:
te espero me aceitar
como sempre te aceitei.
Mas a verdade é que enquanto isso
Todo dia recomeça,
eu sem saber se sou feliz.
Esse sou eu, problemas,
pronomes, tiques,
eu.
Venha como você é,
Aceite-me como sou.
Enquanto Dormíamos
Sei bem que o passado
não irá descansar
enquanto não for
deixado para trás.
As noites estão longas
e seus espaços preenchidos
por sombras do que
ali não está.
Todos os meus velhos amigos
não me reconhecem.
Todos os meu velhos olhares
não mais me enxergam.
Perturbo a noite
com as ondas que faço
na queda ao esquecimento.
A luz da Lua míngua
e ninguém mais me conhece.
Silêncio, de quem foi alcançado
pelo que poderia jurar ter
sido o passado.
Quis-se Pensar
Eu tento não pensar
em qual longe
o Sol está.
Eu tento não pensar
em quão perto
o horror está.
Eu tento não pensar
em como o meu horizonte
é outro lugar.
Eu tento não pensar
em como eu só existo
em horizonte alheio.
Mas por mais que eu me esforce,
que eu pense que não quero pensar,
a chuva desaba e me parte,
rompe minhas defesas
e então, chovo eu.
Eu tento não pensar
quanta sorte eu tenho
pela chuva que acalma
o que um dia chamei de alma.
Sinônimo
Como um disco de vinil
tocam-se os dias.
Ciclos perpétuos
de gente finita.
Talvez a mesmice te mate.
Mas eu vejo como uma chance
de escolher algo
novo.
Ligar-se.
Religar-se.
Humano e sagrado
Sem ser divino.
Uma chance para mudar.
Tornar-se novo,
de novo.
Querer se
surpreender.
Palavras em negrito
adornando tijolos
que nos sustentam.
Nossas pequenas
cidades de sinapses.
Como um disco de vinil
tocam-se os dias.
Ciclos perpétuos
de gente finita.
Na Tua Pele
A chuva mansa mima a terra,
carícias no escuro.
Assisto, escuto, espero.
Sonhando.
Com o que existe do lado de lá,
se chove ali como cá.
Sonhando,
que existe.
Rezando.
Pra te encontrar
como a água encontra
grama para deitar.
Sonhando,
ser possível.
Que o que é tão simples
não seja complicado.
Querendo ficar eu
encharcado.
Sonhando,
com chuva.
Amor.
Eternamente Breves
Existe beleza
nos
desencontros.
Atrasos de minutos, momentos, dias…
vidas.
Uma trilha à um final ímpar,
de um princípio que aquilo não podia
supor.
É nas infinitas combinações
de pessoas e momentos
que faz-se à vida.
Instantes de ordem,
invisíveis, intocáveis.
Eternamente breves.
Tal como eles,
nós outros.
Como foi bom te encontrar.

Boas Palavras
Meus queridos amigos, partiram para não voltar. Um futuro sem ninguém, cheio de...
