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Neve

Como é fácil ferir
aos que conseguem
à nós se abrir.

Bastam palavras inadequadas,
Proposições erradas,
más intenções disfarcadas.

O primeiro intuito é tirar o
coração do mundo.
Guardar para si sem nunca mais
tirar da carcaça de carne que o esconde.

“Para que me expor, se tudo que ganho
são feridas para os vermes habitarem?”

A dúvida vem cruel,
intempestiva,
e logo nos encontramos
duvidando nós mesmos.

Mais cruéis aqueles que
do esconderijo arrancam o coração
com carinho e ternura.

Desnudam-nos diante do mundo.
Tomam-nos como reféns.
Um eterna ameaça de partir
o que já não tem conserto.


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Sonhei Só

Quem dera poder escrever
sem medo dos gigantes
que pairam sobre nós.

Belas palavras para
te confortar num dia frio.
Palavras de amor
quando esse nos falta.

Palavras que possam evocar
algo tão intímo que temos medo
de até para nós mesmos esse algo admitir.

Palavras não são violinos,
não são abraços,
não são companhia,
não consertam o que está quebrado.

Mas, ainda assim, entre palavras,
habitam pessoas,
como fossem frases intersecções
e nós nos cruzassemos
sem nunca nos conhecer.

Li o que você leu,
mesmo que você nunca me veja,
nunca me queira, nunca me ame
ou nem mesmo viva no mesmo tempo.

As palavras são o cupido à alma,
mundos e vidas de distância,
unindo pessoas que jamais teriam sido.


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Ele Sobreviveu

Sombras da noite
em posse de mim.
Maquinário de carne
movendo-se distante.

Sem palavras e
sem sentidos,
impensável e putrido.

Cercado de carcaças,
perto o suficiente para eu sentir
o que logo me aguarda. Ponho-me a rir:
o rumor diz que fugi.


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Conforto Oco

É difícil viver só
Em um mundo de dois.

Nos confis da Terra
o chão partia
E nós continuávamos.

Cada segundo aumentava o abismo,
o tempo meu antigo aliado
agora meu maior inimigo.

Me pego assim, segurando os opostos
para o mundo não terminar.
Em minha recusa de soltar,
Temo um dia eu saber dizer como é
ser esquartejado por amor.

E nesse momento, nesse segundo,
em que decido se solto ou seguro,
eu penso…

Fossem meus braços mais fortes
e mais longos, talvez pudesse segurar
para sempre.

Fosse minha mente apta o bastante,
talvez eu pudesse te dizer as palavras que te fariam ficar
para sempre.

Fossem meus olhos melhores,
talvez eu pudesse enxergar a resposta para estarmos
para sempre.

Mãos sujas que se lavam,
soluços à quem não tem
solução.


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Nenhuma História

Um corpo em queda,
braços esticados,
um suplício.
Tão perto.

À uma mente fechada,
um coração foi aberto.
O sangue escorrido ao chão
sujando os joelhos
dos caídos.

Eu tentei gritar seu nome
mas o silêncio me engoliu.
Todas as promessas
- quebradas.


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Piromania

Olhares casados,
casais cansados.

Sinestesias mesclando;
passado, futuro,
presente
-pessoas como a
gente.

No escuro pensando
como quase tudo foi,
quão perto tudo chegou
-por um triz.

Da tristeza teceu
de retalhos uma trama
que pudesse te esconder,
como não pudesse
seu par te ver.

Não levantarei tal véu:
Irei com fogo expungí-lo.
Estar comigo é estar à luz
-sempre.
Para sempre.

É inútil esconder
o que eu já vi.
É impossível esquecer
o que eu não sei.

Com cautela
é hora de escolher
que memórias formar.


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Os Melhores Anos de Nossas Vidas

Tento me segurar
na ponta de inspiração
que sinto surgir.

Como homem no abismo,
suplico ao meu corpo
por mais força.

Tudo uma tentativa de me puxar
para longe da escuridão.
Longe daquele que já
fui.

As memórias em sépia
tingidas, feitas, esquecidas.
Vazão para a imaginação
do que não foi exatamente.

Lembramos diferente.
E agora os dias nublados
bem nos parecem
ter sido dourados.

Nossa vida era uma folha de outono,
estilhaçada e sem volta,
dando lugar
à algo novo.


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Tarde Demais

Perdi meu compasso,
passo, abraço.
Rimas lentas sibilantes
pois não sei mais
o que escrever.

Como decidir se tudo
soa à minha voz interna
como válido e bom?

É fechar os olhos e se imaginar
caindo num sem fim,
despencando eternamente em direção
à um mar tão negro
que luz nenhuma poderia ali existir.

E nesse não haver, nesse vazio,
solitário, expansivo…
infinito.
O espírito amansa.

Como posso achar paz no pensamento
de um suicida imaginário?
Um corpo que habito sem ser
-um veículo ao vento.

Tudo preto e branco.
Braços abertos encarando o abismo.
Solto-me.
Sem grilhões.
Silêncio absoluto.
Tempo eterno.
Uma queda sem fim,
Uma vida muito breve.


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À Corda Bamba

A música alta é para afogar
as palavras que ardem
na escuridão das
entranhas.

Os medos comuns:
multiplicados.
A lembrança cede
à fantasia.

Nunca sabendo se foi
bom tal como lembro.
Traído por minhas memórias
de um dia em que estive
com você.

Eu me pergunto se você vai
mais uma vez me olhar
como houvessem
borboletas à riscar
as asas nas paredes
do teu corpo.

Tal como antes.
Para sempre e de novo.


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Problemas sem Nome

Eu assisti a legião de anjos descer
por pedestais e escadarias
de mármore
branco.

Em passos que não tocavam o chão,
como fossem força implacável,
levaram-me.

Um outro lugar.

Pudesse eu em palavras explicar,
fosse possível imagens formar…
Eu te contaria. Tudo.

Segredos tão íntimos
que eu mesmo
não poderia saber
até tê-los revelado.

Fotografias desfocadas
de uma câmera humana
de lente torta e rachada.

Super exposto.

Vou flutuar invisível.
Aos olhos alheios,
a-
fundo.


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