Contos do Camaleão
Primeiro Ato: O Grande Baile
Eu fitei as pessoas na festa, tudo era muito claro pra mim. Cada gesto, cada olhar… eu entedia, lia os significados contidos em cada um, como fossem frases visuais. Alguns diriam que é abuso do meu conhecimento mas quem pode culpar um homem por tentar desvendar aqueles que o cercam? As mentiras, traições e meia-verdades não eram minhas, eram dos outros. Eu era apenas tal como um figurante na vida alheia, um mero observador.
Por necessidade e por motivos da razão, conclui eu anos atrás que o melhor método de interagir com o mundo era, de fato, aceitando as máscaras sociais, as convenções impostas, agindo dentro dos conformes aos olhos alheios. Levaram-se anos de observação e eu admito, um desabrochar da intuição natural, mas eu havia me tornado a pessoa perfeita. Não havia momento social onde eu estivesse deslocado, não havia estrato nem sotaque que soubesse me derrubar. Eu era um perfeito camaleão e o meu redor era eu.
A festa era da filha dum poderoso juiz da corte brasileira, festa de casamento, veja você. Trajes suntuosos, escadarias e garçons tão bem arrumados que quase me senti num filme sobre as velhas cortes inglesas, ainda mais pelo fato do juiz vestir de fato uma peruca que me parecia um tanto quanto estranha – mas lógico, esse comentário ficava apenas em pensamento, como eu disse… ele tinha poder, de uma forma ou outra.
Enquanto o velho juiz saudava ilustres convidados, sua mulher olhava e flertava discretamente com os jovens amigos de sua filha. Eu ri, por dentro. Ninguém mais havia percebido, ela sem dúvida sabia mentir. Sondava os jovens rapazes tal como uma cobra espreita a presa – olhando entre as frestas da grama alta, saciando o ar, provando do corpo sem tocar. A minha certeza da traição dela era exatamente isso, uma certeza. Evidência e afins são meras formalidades. O mais interessante talvez fosse a plena consciência do juiz do fato de que sua esposa estava caçando outros companheiros de cama. Havia tempo que os dois haviam perdido contato, o jeito como se portavam denunciava seu matrimônio infeliz.
Voltemos, por este momento, ao foco da festa. Lúcia, a filha do Juiz e, dado o momento, recém casada. Ela sorria de maneira genuína, apesar de revelar em sua expressão um traço de medo, um sentimento tão breve que outros olhos não poderiam ver. Eu vi mas não tinha como dizer ao certo medo do que era, então aceitei, momentaneamente que era o medo natural de ter se comprometido para um homem pro resto da vida. Seu sorriso só saia ao rosto para dar espaço a uma expressão de surpresa, enquanto aproximava a orelha para tentar ouvir o que falavam. O barulho no lugar era tal como um rio, equalizando todas as conversas em ruídos difusos.
Eu não precisava ouvir as palavras para entender o que diziam – mesmo porque, raras são as vezes em que as palavras são aquilo que aparentam. Não, eu não ouvia falsas frases. Eu via ameaças rebuscas com raiva, via desprezo, via sorrisos amarelos… Eles sabiam mentir entre si mas não tente dizer à um camaleão qual cor é o seu ambiente. Um deles começou a vir em minha direção enquanto eu entregava meu sobretudo à mulher do balcão de casacos. Era um contador, baixo, gordinho e meio careca. Inofensivo e, sem dúvida, um covarde. Era fácil lidar com ele pois ele aceitava o que lhe era dito sem pestanejar e, tamanho era seu medo, ele não ousava questionar. Ele começou a falar rapidamente, afobado:
-Oi, tudo bom? Lindo casamento, linda cerimônia! É um belo casal, sem dúvida! Diga uma coisa, pensou na proposta que eu te passei? Porque eu acho que-
-É interessante mas o momento não é ideal. Faça o seguinte, você tem meu número, me ligue que agendaremos um almoço. – Menti. E
-Está bem, isso seria ótimo! Muito obrigado!
-Não tem de que. – Coitado, ainda me agradece.
Peguei o número do meu casaco com a moça ao balcão. No momento que ela se inclinou pra frente, pude decifrá-la. Seu perfume tinha um cheiro adocicado, suave, tão suave até que ficava oprimido pelos caros perfumes franceses dos convidados. Naquele exato momento ela me disse mais sobre ela do que disse à muitos em sua vida. A dosagem do perfume era uma amostra de seu próprio equilíbrio, sua humildade – faltavam-lhe excessos. Seus traços revelavam sua origem, seus jeitos revelavam sua personalidade, seu cheiro revelava seu corpo. Sorri nesse segundo, divertindo-me com minhas próprias habilidades. De fato, eu me sentia como um detetive num mundo que nem sabe que existam tais peritos. E, admito em minha própria megalomania, sentia-me quase como um deus, assistindo ao teatro da humanidade, rindo das ironias e, à cada tanto, puxando fios e mudando luzes. Só pra ver o que acontecia.
Deixei o contador tal onde estava, ele não me seria útil à nada, jamais almoçaríamos mas não me importei com minha mentira. Adentrei a multidão, cumprimentando e sorrindo, não impotava se eu conhecia ou não as pessoas. Era importante que todos soubessem que eu estive na festa. É importante que lembrassem de minha presença, mesmo se esquecessem meu nome. Tal dizia o velho ditado, ali estava eu para “Ver e ser visto”. Afinal… do outro lado da cidade, neste exato momento, um assassinato ocorria e eu precisava permanecer acima de qualquer suspeita. Era até mesmo um teste de minhas habilidades, admito que era um dia excitante, nunca havia tentado algo tão ousado. Se hoje tudo corresse bem… seria o primeiro de muitos por vir.
Deixei transparecer minha alegria, fingindo ser ela honesta e sinceramente pelos noivos. Cumprimentei Lúcia com um abraço e um leve beijo na bochecha… mas eu sabia que era o suficiente para disseminar o princípio da discórdia. O Noivo, cumprimentei com um aperto de mão forte – senti a raiva dele, contida. Ele tornaria meu trabalho fácil demais. Lúcia já me olhava diferente, fitava com certa curiosidade. Eu me afastei do casal, indo cumprimentar outras pessoas. Vi o Noivo questioná-la sobre quem seria eu, ela respondeu que era eu amigo do pai dela. Haha… amigo do pai dela. Coitados, tão ingênuos.
